sábado, 27 de junho de 2026
terça-feira, 23 de junho de 2026
quinta-feira, 11 de junho de 2026
NOVA RAINHA
Temos uma Nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia
Um registro da cerimônia documenta a coroação de Samara Regina Ferreira como nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG), sucedendo sua avó, D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), que durante décadas exerceu papel central na preservação da tradição congadeira local.
A escolha da nova Rainha Perpétua representa a continuidade de um legado familiar, religioso e cultural profundamente vinculado à Irmandade das Sete Guardas e à preservação das festividades do Reinado. A sucessão reafirma a transmissão da missão desempenhada pela Rainha Perpétua entre gerações, fortalecendo a memória coletiva e a permanência das tradições afro-brasileiras que caracterizam o Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.
A trajetória de Samara Regina Ferreira no Reinado teve início ainda na infância, quando foi coroada princesa e passou a integrar as celebrações do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, evidenciando a continuidade da tradição entre gerações.
Com a coroação, Samara Regina Ferreira passou a assumir, ao lado do Rei Congo Dilermando e da Rainha Conga Maria Ana, a responsabilidade pela condução dos festejos do Reinado, mantendo viva uma herança cultural transmitida entre gerações.
O registro descreve ainda o ritual de coroação realizado na Capelinha das Sete Guardas. A cerimônia é marcada por cortejo, cânticos, orações e pela entrega dos principais símbolos da realeza congadeira: a coroa, o manto e a insígnia.
Cada etapa é acompanhada por versos tradicionais entoados pelo Capitão-Mor e respondidos pela assembleia, reforçando o caráter sagrado da coroação e a devoção a Nossa Senhora do Rosário.
Por se tratar da coroação da Rainha de Santa Ifigênia, o rito inclui ainda elementos específicos ligados à santa, como a entrega simbólica da Casinha de Santa Ifigênia, além de cantos, homenagens e do ritual de cumprimentos realizado pelos congadeiros.
As guardas de Moçambique e Candombe participam ativamente da
celebração, saudando a nova rainha com flores, cânticos e toques de caixas e
gungas.
Ao final, o cortejo conduz a nova Rainha até a residência de D. Sãozinha, que permanece como quartel das guardas,
simbolizando a continuidade da tradição.
Ao final, o registro reafirma o Reinado como expressão de fé, memória, ancestralidade e resistência cultural, ressaltando que o respeito a essa manifestação passa pelo conhecimento de suas tradições e pela convivência com a comunidade congadeira de Itaúna.
Nota metodológica
A presente síntese foi elaborada com base em um relato de observação produzido pelo Professor Geraldo Fonte Boa durante a cerimônia de coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia. Como registro contemporâneo ao acontecimento, a fonte documenta aspectos da liturgia, dos cânticos e das práticas cerimoniais do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna, constituindo relevante testemunho para o estudo dessa tradição.
Nota complementar
A
cerimônia de coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, realizada em 2024,
também foi registrada em vídeo por Gilson Antônio e encontra-se
disponível no YouTube. O registro audiovisual constitui uma importante fonte
complementar para a preservação da memória do Reinado de Nossa Senhora do
Rosário de Itaúna, permitindo acompanhar os ritos, cânticos, símbolos e
homenagens que marcaram a coroação de Samara Regina Ferreira como
sucessora de D. Sãozinha na função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia.
Referências
FONTE BOA, Geraldo. Temos uma nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia! Itaúna, 24 mar. 2024. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2024/03/temos-uma-nova-rainha-perpetua-de-santa.html. Acesso em: 3 jun. 2026.
Registro audiovisual da cerimônia: Coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia (2024) – Gilson Antônio. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=w4A4QzSEt9Y
© AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Síntise, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Nota sobre a imagem de capa
A imagem de capa consiste em uma representação artística inspirada em referências históricas, culturais e iconográficas relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG). Não se trata de um registro fotográfico de um evento específico, mas de uma composição concebida para ilustrar o universo simbólico e religioso abordado nesta obra.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
DESCOROAMENTO
Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna
Um relato de observação produzido durante a cerimônia documenta o ritual de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, preservando uma rara descrição das práticas litúrgicas e simbólicas que acompanham esse rito funerário.
A cerimônia, realizada durante o velório de D. Sãozinha, constitui uma manifestação rara e profundamente simbólica da tradição congadeira, marcada pela despedida de uma liderança que, durante décadas, esteve à frente da organização do Reinado em Itaúna.
Antes da descrição do ritual, o documento contextualiza a importância de D. Sãozinha para a comunidade congadeira. Além de exercer a função de Rainha Perpétua, sua residência servia como quartel de guardas tradicionais do Reinado, tornando-se um importante espaço de preservação da fé, da cultura e das práticas religiosas ligadas à devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Santa Ifigênia.
Sua atuação estava diretamente associada à manutenção das festividades anuais, que mobilizam guardas, capitães, familiares e devotos em torno de uma tradição transmitida entre gerações.
O velório foi marcado por homenagens realizadas pelos capitães e integrantes das guardas, que expressaram sua despedida por meio de orações e cânticos. Em respeito à solenidade do momento, os instrumentos tradicionalmente presentes nas festas permaneceram silenciados, reforçando o caráter de luto e reverência à rainha falecida.
O ritual de descoroamento teve início algumas horas antes do sepultamento, sob a condução do Capitão-Mor da Irmandade das Sete Guardas. Sobre o corpo da rainha foram colocados os símbolos de sua função: a coroa, o manto e o cetro. A cerimônia desenvolveu-se por meio de orações e cânticos responsoriais, nos quais a assembleia acompanhava as invocações conduzidas pelos capitães. Em seguida, realizou-se a retirada ritual desses objetos sagrados.
Utilizando bastões, os capitães erguiam a coroa, o manto e o cetro sem tocá-los diretamente com as mãos, conduzindo-os ao longo do corpo da falecida até entregá-los às suas filhas e netas. Esse gesto simbolizava o encerramento de sua missão terrena como Rainha Perpétua e a devolução das insígnias que representam a autoridade espiritual e cerimonial exercida durante sua vida.
Após a retirada dos símbolos, os participantes entoaram cânticos finais que confirmavam o descoroamento da rainha e exaltavam sua trajetória de devoção. O ritual foi encerrado com vivas a Nossa Senhora do Rosário e ao Rosário de Maria, reafirmando a dimensão religiosa da cerimônia e a crença na continuidade espiritual da missão cumprida por D. Sãozinha.
O documento registra ainda que as homenagens prosseguiram durante o cortejo fúnebre, na Capela do Rosário e no cemitério, sempre acompanhadas por cânticos e manifestações de respeito à Rainha Perpétua.
Ao final, informa que a coroa permaneceu sob a guarda de suas descendentes, responsáveis por definir quem assumiria futuramente a função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, garantindo a continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.
Por fim, o texto contextualiza historicamente a existência da Capela das Sete Guardas, vinculando sua criação às tensões ocorridas na década de 1940 entre congadeiros e autoridades eclesiásticas.
O ritual de descoroamento evidencia que a morte da Rainha Perpétua não representa o encerramento da tradição, mas a continuidade de uma missão religiosa transmitida entre gerações. Ao preservar os cânticos e a memória da falecida, a cerimônia reafirma a identidade coletiva da comunidade congadeira e a permanência das tradições afro-brasileiras que constituem o Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.
FONTE BOA, Geraldo. Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2023/12/ritual-de-descoroamento-da-rainha.html . Acesso em consulta realizada para esta síntese.
A análise apresentada neste capítulo baseia-se principalmente em um relato de observação produzido durante a cerimônia de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), documento que registra detalhadamente a sequência ritual, os cânticos e as práticas litúrgicas observadas. Por se tratar de um registro contemporâneo ao acontecimento, a fonte constitui um importante testemunho documental para o estudo do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Síntese, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Mais registros sobre a Rainha
Itaúna se despede de Dona Sãozinha, Rainha do Reinado
Expoente da cultura e folclore religioso
Nota sobre a imagem de capa
A imagem de capa consiste em uma representação artística inspirada em referências históricas, culturais e iconográficas relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG). Não se trata de um registro fotográfico de um evento específico, mas de uma composição concebida para ilustrar o universo simbólico e religioso abordado nesta obra.
terça-feira, 2 de junho de 2026
VOZES DO REINADO
A série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, oferece ao público a oportunidade de conhecer as narrativas, memórias e experiências compartilhadas pelos próprios integrantes de uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas do município.
Organizada em quatro episódios temáticos, a produção aborda diferentes dimensões do Reinado, contemplando suas narrativas de origem, a trajetória das guardas, a centralidade da fé e a importância da festa como espaço de preservação da memória coletiva e da ancestralidade afro-brasileira.
Mais do que registrar uma celebração tradicional, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural em seu cotidiano.
Antes da análise dos episódios, é importante destacar que a série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal, constitui um registro fundamentado principalmente na memória coletiva, na tradição oral e nos testemunhos dos próprios integrantes.
Ao longo dos quatro episódios, as narrativas são construídas a partir das experiências, crenças, lembranças, devoções e interpretações compartilhadas por capitães, reis, rainhas, congadeiros e demais participantes da manifestação.
Nesse sentido, o documentário não se apresenta como uma pesquisa histórica baseada na análise crítica de documentação escrita, registros arquivísticos ou debates historiográficos especializados.
Sua proposta consiste em dar voz aos sujeitos que vivenciam e preservam a tradição do Reinado, registrando narrativas de origem, valores religiosos, símbolos, práticas culturais e memórias transmitidas entre gerações.
Dessa forma, os relatos apresentados devem ser compreendidos como expressões da memória social e da identidade cultural dos grupos envolvidos.
Elementos como a lenda de Chico Rei, o resgate de Nossa Senhora do Rosário pelas guardas e outras narrativas presentes nos episódios integram um universo simbólico construído e preservado pela tradição oral, desempenhando papel fundamental na formação da identidade do Reinado.
Ainda que nem sempre possam ser verificadas por meio da documentação disponível, essas narrativas possuem relevância histórica por revelarem as formas pelas quais as comunidades interpretam suas origens, atribuem significados ao passado e fortalecem seus vínculos coletivos no presente.
Sob essa perspectiva, o documentário oferece uma importante fonte para a compreensão de como os próprios congadeiros interpretam sua história, sua fé, sua ancestralidade e sua trajetória coletiva.
Mais do que buscar estabelecer uma reconstrução factual das origens do Reinado, a produção permite observar os significados atribuídos à manifestação por aqueles que a mantêm viva na contemporaneidade.
Do ponto de vista metodológico, torna-se necessário distinguir memória, tradição oral e história. Enquanto a história acadêmica busca compreender o passado por meio da análise crítica de diferentes fontes documentais, a memória constitui uma construção social permanentemente atualizada pelos grupos que a preservam.
A tradição oral, por sua vez, atua como um importante mecanismo de transmissão de conhecimentos, valores, crenças e experiências entre gerações. Essas diferentes formas de interpretação do passado não devem ser vistas como excludentes, mas como dimensões complementares que contribuem para a compreensão dos fenômenos culturais.
Assim, o principal valor histórico da série documental não reside na comprovação documental dos acontecimentos narrados, mas na possibilidade de compreender como os participantes do Reinado elaboram suas lembranças, constroem suas identidades e atribuem sentido à própria existência da manifestação.
A estrutura da série documental acompanha um percurso narrativo que parte das narrativas de origem do Reinado, avança para a organização e a continuidade das guardas, aprofunda-se na dimensão espiritual da manifestação e culmina na celebração pública da festa.
Ao longo dos quatro episódios, os depoimentos dos participantes revelam como memória, ancestralidade, fé, tradição e pertencimento são constantemente articulados na construção da identidade congadeira, expressa nas práticas e vivências do Reinado.
Dessa forma, mais do que apresentar uma cronologia dos acontecimentos, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural na contemporaneidade.
Ao registrar essas vozes, o documentário preserva um importante patrimônio imaterial e oferece um testemunho significativo sobre os processos de construção da memória coletiva, da religiosidade popular e da ancestralidade afro-brasileira em Itaúna.
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
REFERÊNCIAS:
PREFEITURA
MUNICIPAL DE ITAÚNA. A História do Reinado em Itaúna – Episódio 1.
YouTube, 01/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p0WuchARm_c.
Acesso em: 10 jun. 2026.
PREFEITURA
MUNICIPAL DE ITAÚNA. As Guardas – Episódio 2. YouTube, 11/08/2025.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PHCkF8z7roM.
Acesso em: 10 jun. 2026.
PREFEITURA
MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Fé – Episódio 3. YouTube, 18/08/2025. Disponível
em:
https://www.youtube.com/watch?v=uPtRln9vjhM. Acesso em: 10 jun. 2026.
PREFEITURA
MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Festa – Episódio 4. YouTube, 26/08/2025.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Az0mXhLqbKU
. Acesso em: 10 jun. 2026.
Nota sobre a imagem de capa
A imagem utilizada na capa deste documentário foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), tendo como referência fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e informações históricas relacionados ao Reinado de Itaúna. Trata-se de uma representação artística inspirada no patrimônio cultural e religioso da manifestação, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.
domingo, 24 de maio de 2026
ITAÚNA: FESTA DO REINADO
DOCUMENTÁRIO
O blog "Afro Memória Itaunense" apresenta a série documental “ Festa do Reinado" em Itaúna, produção audiovisual realizada pela Prefeitura Municipal de Itaúna dentro do Programa de Educação Patrimonial dedicado à preservação e valorização deste importante bem cultural do município.
A narrativa é conduzida pelo professor e pesquisador
Geraldo Fonte Boa, cuja trajetória está profundamente vinculada aos estudos da
história e das tradições populares itaunenses.
Originalmente
divulgada em oito episódios curtos, a série buscou registrar aspectos
históricos, religiosos, simbólicos e culturais da Festa de Nossa Senhora do
Rosário — manifestação que integra uma das mais importantes expressões da
religiosidade popular e da memória afro-brasileira em Itaúna.
Mais do que uma festividade religiosa, o Reinado constitui um patrimônio coletivo construído ao longo de gerações, envolvendo fé, devoção, musicalidade, ancestralidade, identidade comunitária e resistência cultural.
Os episódios apresentados pela
Prefeitura em 2018 tiveram justamente o objetivo de aproximar a população dessa
herança histórica, reforçando sua importância para a preservação da memória
local.
Nesta edição
especial reunida pelo Afro Memória Itaunense, os oito episódios foram
organizados em uma única página, permitindo ao público acompanhar de forma
contínua a narrativa histórica sobre a formação e o significado da Festa de
Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.
Ao longo da
série, são abordados temas fundamentais da tradição do Reinado:
A origem histórica da festa em Itaúna;
Sua popularização no município;
O papel das capelas e dos espaços sagrados;
Os festejos e rituais tradicionais;
As Guardas do Reinado e seus significados;
Os sons, cores e símbolos presentes nas celebrações;
A importância das Rainhas da festa;
A preservação patrimonial vinculada ao Cruzeiro e às
Capelas de Nossa Senhora do Rosário.
O episódio final
destaca a dimensão patrimonial da celebração, lembrando que as capelas e o
Cruzeiro vinculados ao Reinado constituem bens tombados, preservando uma
tradição que atravessa mais de 150 anos da história itaunense.
O Afro Memória Itaunense disponibiliza esta compilação com finalidade exclusivamente
cultural, educativa e de preservação da memória histórica local, mantendo os
devidos créditos à produção original realizada pela Prefeitura Municipal de
Itaúna e à narrativa do professor Geraldo Fonte Boa.
Narrativa
Histórica: Professor Geraldo Fonte Boa.
Série produzida
em 2018 dentro do Programa de Educação Patrimonial do Município de Itaúna/MG.
Material disponibilizado para fins culturais, educativos e de preservação da memória histórica do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna/MG.
sábado, 23 de maio de 2026
DUNGA
Maria Concebida Viana
A voz negra que ecoou na alma de Itaúna
Em uma Itaúna marcada pelos bailes populares, pelas serestas sob a luz amarelada dos postes e pelos carnavais que transformavam a Praça da Matriz em um verdadeiro palco popular, uma voz se impunha acima da multidão.
Não era apenas potência vocal. Era presença. Era identidade. Era memória coletiva. Essa voz pertencia a Maria Concebida Viana, eternizada na cidade simplesmente como Dunga.
Cantora negra, Dunga construiu seu nome pela força do talento. Sua voz atravessou décadas, atravessou gerações e permaneceu viva na lembrança afetiva de Itaúna mesmo após sua morte, em 14 de outubro de 2005.
Sua trajetória foi profundamente itaunense. Sua arte nasceu das ruas, dos encontros musicais, das escolas de samba, dos grupos de baile e das serestas que moldaram a cultura popular da cidade nas décadas de 1960, 1970 e 1980.
Durante anos, integrou conjuntos musicais e apresentações ao lado de nomes importantes da música local, como o acordeonista Glício Mendes. Sua presença artística se expandiu para além de Itaúna através do projeto Minas ao Luar, promovido pela Rede Globo Minas, pelo qual percorreu diversas cidades mineiras durante parte da década de 1980, levando consigo a musicalidade e a identidade cultural itaunense.
Mas talvez tenha sido no carnaval que Dunga tenha alcançado uma dimensão quase mítica. Em uma época em que os “puxadores” de samba eram tradicionalmente homens, ela assumiu a condução dos sambas-enredo da Escola de Samba Clube dos Zulus. Não apenas ocupou aquele espaço: dominou-o. Sua voz passou a incendiar a antiga avenida da Praça da Matriz, transformando desfile em espetáculo.
Fernando Lúcio de Lima recorda exatamente essa força: “A Dunga não podia faltar. Voz poderosa que incendiava a Praça da Matriz nos bons tempos do carnaval itaunense. Ouço a voz da Dunga nos desfiles memoráveis do Zulu. Era uma rainha que cantava.”
A expressão é precisa: “uma rainha que cantava”. Porque Dunga não era apenas intérprete; ela ocupava o espaço com autoridade artística. Sua presença carregava dignidade, imponência e carisma.
Sua trajetória, porém, não se limitava ao samba e à música popular. O texto sobre as organistas da Matriz de Sant’Ana registra sua participação ao lado da organista Anna Alves Vieira dos Reis, entoando os versos graves e solenes do Agnus Dei da Missa in honorem Sancti Michaelis Archangelis.
Esse detalhe é extremamente significativo historicamente: revela uma artista capaz de transitar entre o universo popular do carnaval e o repertório sacro erudito da liturgia católica.
Essa versatilidade desmonta qualquer tentativa simplista de enquadrar Dunga apenas como cantora carnavalesca. Ela era intérprete de múltiplos repertórios, dona de uma voz lírica e potente, capaz de ocupar tanto a avenida quanto a igreja, tanto a seresta quanto o canto religioso.
Sandra Crespo Lima resumiu essa lembrança em poucas palavras: “Conheci a Dunga. Voz linda. Ela cantou no Zulu.”
Já Agostinho Rocha recorda não apenas a cantora, mas a presença humana: “Já tive o prazer de contracenar com a Dunga num curto diálogo teatral, no Sindicato dos Metalúrgicos! Tudo é saudade para nós, corações vividos...!”
O comentário revela outro aspecto importante: Dunga participava ativamente da vida cultural da cidade. Não era uma artista isolada, mas alguém integrada aos espaços coletivos de sociabilidade popular.
Pepe Chaves, por sua vez, destacou a dimensão afetiva deixada por ela: “Sua voz potente e lírica será ainda lembrada por muitos itaunenses que tiveram o prazer de ouvi-la.” [...] "Dunga possuía uma voz que remetia às grandes cantoras negras da música gospel norte-americana".
E talvez seja justamente aí que reside a permanência de Dunga. Sua memória sobrevive porque ela pertence à experiência emocional da cidade. Dunga não foi apenas “uma cantora de Itaúna”. Ela se tornou parte da paisagem sonora da memória itaunense.
Sua última apresentação pública possui força quase simbólica. Poucos dias antes de falecer, voltou ao palco justamente em uma edição do Minas ao Luar, realizada na Praça Dr. Augusto Gonçalves. Era como se encerrasse sua trajetória diante da própria cidade que ajudou a cantar durante décadas.
Quando se fala nos antigos carnavais de Itaúna, nas serestas, nos bailes populares, na Praça da Matriz tomada pelo samba e pela música, sua voz continua presente, não apenas como lembrança, mas como patrimônio afetivo e cultural de uma cidade inteira.
As imagens e o vídeo apresentados nesta publicação não correspondem, em sua totalidade, a registros fotográficos ou audiovisuais originais de Maria Concebida Viana, a Dunga.
Parte do material consiste em recriações visuais interpretativas produzidas, elaboradas a partir de fotografias históricas, relatos memorialísticos, referências documentais e descrições relacionadas à cantora itaunense.
As recriações buscaram preservar, de forma respeitosa, características físicas, estéticas e contextuais associadas à artista, especialmente sua atuação nos meios musicais e culturais de Itaúna ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980.
O objetivo deste material é contribuir para a preservação da memória cultural itaunense, valorizando a trajetória artística de Dunga e ampliando o acesso público à sua história por meio de recursos visuais contemporâneos inspirados em fontes históricas disponíveis.
Todo o conteúdo foi desenvolvido pelo projeto Itaúna Décadas com finalidade exclusivamente cultural, educativa, histórica e memorialística.
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Referências
CHAVES, Pepe. Itaúna perde a cantora Dunga. Via Fanzine, [s.l.], 2005. Disponível em: Via Fanzine Galeria. Acesso em: 23 maio 2026.
MOREIRA JÚNIOR, Rodrigo Botelho. As organistas da Matriz de Sant’Ana. Itaúna Décadas, Itaúna, 30 ago. 2016. Disponível em: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna. Acesso em: 23 maio 2026.
Depoimentos em rede social
CHAVES, Pepe. Depoimento sobre Maria Concebida Viana (Dunga). Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
LIMA, Fernando Lúcio de. Depoimento sobre os carnavais itaunenses e a participação de Dunga nos desfiles do Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
ROCHA, Agostinho. Depoimento sobre participação teatral ao lado de Dunga no Sindicato dos Metalúrgicos de Itaúna. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
LIMA, Sandra Crespo. Depoimento sobre a atuação musical de Dunga no Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
XADREZ, Cepex. Comentário em memória da cantora Dunga. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407



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