quinta-feira, 14 de maio de 2026

ROSÁRIO SAGRADO

IGREJA DO ROSÁRIO ITAÚNA/MG

ROSÁRIO 1859

No ano de 1859, quando o sino da capela ecoava entre os vales e colinas do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, uma pequena menina, chamada Luísa foi batizada, filha de Manuel, pardo e de Joanna, crioula, escravos.

O batismo de Luísa não foi apenas um ato religioso, foi um gesto de afirmação de vida.

A cena, registrada pelo padre João Batista de Miranda, revela mais do que um simples ato de fé: traz também o testemunho de um povo que, mesmo sob privações, mantinha viva sua ligação com o divino.

As mãos que seguraram Luísa sobre as águas batismais eram as mesmas que trabalhavam na terra, construíam paredes, entoavam cânticos e faziam do Morro do Rosário um altar invisível de resistência e esperança.

Naquela colina, onde hoje se ergue a Igreja do Rosário e onde ecoam as vozes do Reinado e do Congado, as lágrimas e as preces de tantas Joannas e Manueis transformaram o solo em território sagrado. O Morro do Rosário tornou-se, desde então, um portal entre o céu e a terra, entre o sofrimento e a liberdade, entre o cativeiro e a promessa de redenção.

As mãos negras entrelaçadas, como na imagem, representam os elos que atravessaram os séculos: mãos que batizaram, coroaram, construíram e rezaram. Cada toque, cada palma aberta sobre o chão, fincou a fé dos ancestrais que fizeram daquele morro um símbolo de comunhão espiritual e memória coletiva.

Hoje, Itaúna guarda no Morro do Rosário não apenas uma paisagem, mas um testamento de fé. Ali, a espiritualidade africana e cristã se fundiram em cânticos, tambores e promessas. E se o nome antigo, Sant’Ana do Rio São João Acima, designava o nascente de um povoado, o nome atual — Itaúna, Pedra Negra — parece carregar o mesmo destino: lembrar que da pedra e da negritude brotou a força da cidade e de sua história.

O Morro do Rosário é, portanto, mais do que um ponto geográfico. É um santuário ancestral, onde a história se ajoelha diante da fé, e onde o tempo se curva em reverência àqueles que, mesmo sem liberdade, jamais deixaram de acreditar.

BATISMO: LUISA

Aos vinte de Agosto de mil oitocentos e cinquenta e nove batizei solenemente a LUISA, filha legítima de MANUEL pardo e de JOANNA crioula, escravos do Alferes José Bernardes de Carvalho. Foram Padrinhos Ilídio Coelho Duarte, e sua cunhada Carlota Nogueira Duarte, e para constar faço este assento”. <O Pároco João Batista de Miranda>.

O texto 'ROSÁRIO SAGRADO' convida o leitor a adentrar uma narrativa construída a partir de vestígios documentais e sensibilidade histórica, na qual o registro de batismo de uma criança escravizada — Luísa — transcende sua dimensão burocrática para revelar camadas profundas de fé, resistência e memória coletiva no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, atual Itaúna. 


Ao articular o dado arquivístico com uma interpretação simbólica, a narrativa ilumina o papel do Morro do Rosário como espaço de espiritualidade, onde práticas religiosas, ancestralidade africana e experiências do cativeiro se entrelaçam. 

Mais do que reconstituir um episódio, o texto propõe uma leitura sobre a permanência da fé como linguagem de afirmação da vida e como elemento estruturante das identidades sociais e culturais que moldaram a história local.


© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

 Referências:

História criada inspirada no registro de batismo de 20 de agosto de 1859, lavrado pelo pároco João Batista de Miranda, no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima (atual Itaúna/MG).

Imagem e vídeo meramente ilustrativos, criados por Inteligência Artificial (IA), simbolizando união, ancestralidade e fé.

Fonte: Livro de Batismos – Arquivo Eclesiástico de Itaúna/MG. "Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica, 1706-2018," database with images, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-6SPS-2TD?cc=2177275&wc=M5NZ-7MS%3A370027101%2C369941902%2C370591301): 23 February 2022), Divinópolis > Santana > Batismos 1858, Dez-1876, Nov > image 7 of 274; Paróquias Católicas (Catholic Church parishes), Minas Gerais.  

ROSÁRIO SAGRADO by Itaúna Décadas

terça-feira, 12 de maio de 2026

ROSÁRIO SAGRADO

 

CAPELA DO ROSÁRIO ITAÚNA MG


O adro do Rosário constituía um espaço sagrado vinculado diretamente à antiga Capela de Nossa Senhora do Rosário, integrando não apenas a dimensão religiosa do templo, mas também práticas comunitárias, rituais festivos e sepultamentos. 

Historicamente, o termo “adro” designava a área situada diante, ao redor ou nas proximidades imediatas da igreja, funcionando como extensão simbólica e espiritual do espaço consagrado.

No caso do Rosário de Itaúna, os registros históricos e memorialísticos indicam que esse adro exerceu também função funerária, especialmente relacionada à população afrodescendente e escravizada. 

Embora determinadas representações visuais contemporâneas possuam caráter apenas ilustrativo, é plausível compreender que os enterramentos não se restringiam exclusivamente à parte posterior da capela, mas alcançavam diferentes áreas adjacentes ao templo.

A própria configuração espacial do terreno remanescente atrás da igreja, ainda perceptível nos dias atuais, sugere limitações físicas incompatíveis com a quantidade de sepultamentos mencionados em registros históricos, que apontam para mais de uma centena de enterros realizados no adro. 

Isso reforça a hipótese de que a área funerária se distribuía ao redor do conjunto religioso, abrangendo lados diversos do morro e do espaço sacralizado da capela.

Mais do que um simples espaço externo da igreja, o adro do Rosário deve ser compreendido como território de memória, religiosidade e pertencimento coletivo. 

Nele se articulavam práticas de fé, sociabilidades afrodescendentes, rituais do Reinado e experiências de morte e ancestralidade que marcaram profundamente a formação histórica e cultural de Itaúna.

Fontes e referências históricas reforçam a compreensão do antigo cemitério localizado “aos arredores” da Capela do Rosário, associado ao morro e às celebrações tradicionais do Reinado.







NOTA SOBRE AS IMAGENS E VÍDEO DA CAPELA DO ROSÁRIO

Estas imagens e o vídeo apresentados não correspondem a registros históricos originais. Tratam-se de reconstruções visuais interpretativas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA), elaboradas a partir de referências documentais, relatos memorialistas e fontes históricas relacionadas à Capela do Rosário de Itaúna/MG.

A composição foi inspirada em descrições históricas sobre o antigo adro murado da capela, utilizado durante longo período como espaço de sepultamento, especialmente pelas camadas populares da população local. 

Também dialoga com registros e narrativas sobre a presença afrodescendente, os rituais religiosos, o Reinado e a dimensão comunitária existente ao redor da antiga ermida do Rosário.

As cenas procuram representar, de maneira simbólica e sensível, possíveis atmosferas do passado: o pequeno cemitério em torno da igreja, os muros rústicos de pedra, as cruzes simples, os ritos funerários coletivos e a experiência da fé popular no contexto itaunense dos séculos XVIII e XIX.

Mais do que reconstruir visualmente uma paisagem, as imagens e o vídeo buscam evocar sentimentos de ancestralidade, memória, silêncio, espiritualidade e permanência histórica.

As produções devem ser compreendidas como representações artísticas e historiográficas de caráter interpretativo, não como reproduções fiéis ou documentos primários.


No ITAÚNA DÉCADAS, o uso de inteligência artificial ocorre exclusivamente com finalidade cultural, educativa, memorial e de mediação histórica, preservando sempre a distinção entre documento original e reconstrução visual contemporânea.



Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

CAPELA DO ROSÁRIO ITAÚNA MG
 Texto, pesquisa, arte e concepção:

MENÇÃO HONROSA: PEDRA NEGRA

 

O resultado preliminar do Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular – edição 2025, promovido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan),trouxe uma notícia de grande relevância para Itaúna e para os estudos sobre cultura popular no Brasil.

Entre as 121 monografias inscritas de todas as regiões do país, o trabalho “Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente”, apresentado sob o pseudônimo Pedra Negra, do historiador itaunense Charles Galvão de Aquino, recebeu a 1ª Menção Honrosa, reconhecimento que o coloca ao lado das pesquisas mais inovadoras e consistentes deste ano no campo do folclore e das tradições afro-brasileiras.

A conquista é representativa não apenas pelo resultado em si, mas pelo que simboliza para a cidade de Itaúna e para os debates contemporâneos sobre patrimônio, memória e identidade. O Concurso Sílvio Romero, criado em 1959, é um dos mais tradicionais certames acadêmicos do país.

As monografias vencedoras passam por um processo rigoroso de avaliação, conduzido por uma comissão de pesquisadoras e pesquisadores de instituições como UFBA, UFMG, UFRGS, UnB, UFF e UFMT, referência nacional em antropologia, história, cultura popular e música. 

Esses especialistas analisam cada trabalho a partir de critérios que incluem contribuição teórica, originalidade temática, domínio bibliográfico, consistência argumentativa e clareza na apresentação dos resultados. Em outras palavras, não se trata de um prêmio de participação, mas de um espaço onde apenas pesquisas com real densidade acadêmica ganham destaque.

Neste contexto altamente competitivo, a menção honrosa atribuída ao trabalho evidencia que o estudo sobre o Reinado, o Congado e o adro do Rosário em Itaúna alcançam um nível de maturidade intelectual que dialoga com agendas nacionais e com debates consolidados sobre religiosidade afro-brasileira, memória coletiva, territórios sagrados e patrimônio cultural.

O texto premiado demonstra que o adro do Rosário não é apenas um espaço físico, mas um território ritual e histórico onde narrativas, práticas e símbolos afrodescendentes resistiram e se reinventaram ao longo do tempo, mesmo diante de repressões, tentativas de silenciamento e transformações urbanas. 

Essa perspectiva interdisciplinar coloca Itaúna em posição de destaque ao reconhecer que suas celebrações e tradições não são manifestações periféricas, mas elementos essenciais da herança cultural brasileira.

Ao tratar o adro do Rosário como um “território sagrado da memória afrodescendente”, o estudo ilumina práticas de fé, redes de solidariedade e formas de resistência que estruturaram a experiência negra no município e continuam a moldar sua identidade cultural.

O reconhecimento nacional, portanto, fortalece reivindicações em torno da preservação do patrimônio material e imaterial, especialmente no Morro do Rosário de Itaúna/MG.

Ao receber a 1ª Menção Honrosa, o trabalho Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna ganha visibilidade pública e passará a integrar o acervo da Biblioteca Amadeu Amaral do CNFCP, onde poderá ser consultado por pesquisadores, estudantes e instituições interessadas no tema.

Isso contribui não apenas para difundir o nome de Itaúna e de sua tradição centenária, mas também para ampliar o debate sobre a memória afrodescendente no interior de Minas Gerais, aproximando a cidade de outras pesquisas nacionais sobre congados, reinados e religiosidades negras.

A premiação abre portas importantes para o fortalecimento das políticas culturais locais, já que legitima a relevância do Reinado e do adro do Rosário enquanto patrimônios coletivos.

Num momento em que muitas manifestações de matriz africana ainda enfrentam preconceito, marginalização e disputas simbólicas, ver um estudo sobre Itaúna ser destacado entre tantas pesquisas de alta qualidade reafirma a necessidade de valorização das tradições negras como fundamento da cultura brasileira.

Sob o pseudônimo Pedra Negra, a pesquisa reconhecida nacionalmente demonstra que o interior mineiro produz conhecimento capaz de transformar debates, ampliar horizontes e reposicionar histórias que por muito tempo foram relegadas aos bastidores.

A 1ª Menção Honrosa do Concurso Sílvio Romero 2025 não celebra apenas um pesquisador: celebra o Reinado, celebra a memória do Rosário e celebra a força ancestral que moldou — e continua moldando — Itaúna como um território vivo de fé, resistência e pertencimento.

REINADO DE ITAÚNA MG


Resumo: Esta monografia analisa o Reinado, o folclore e a cultura popular em Itaúna, tomando o adro da Capela do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente. O Reinado de Nossa Senhora do Rosário é interpretado como prática religiosa e política, na qual fé, ancestralidade e resistência se entrelaçam de forma coletiva. 

Embora o antigo cemitério tenha sido suprimido em sua estrutura física, abriga os restos mortais de centenas de afrodescendentes, configurando-se como espaço de pertencimento, dignidade histórica. 

A pesquisa demonstra como a cultura popular afro-brasileira transforma o esquecimento em presença simbólica viva. Diante da desatenção histórica e do apagamento dessa dimensão funerária, o trabalho defende o reconhecimento do antigo cemitério do adro como patrimônio imaterial, imprescindível à história negra e à construção da identidade cultural itaunense.




IMAGEM & VÍDEO
Reconstituição ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Morro do Rosário, em Itaúna/MG, e na pesquisa “Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente”, reconhecida com 1ª Menção Honrosa no Concurso Sílvio Romero 2025.

A imagem e vídeo não correspondem a um registro histórico, tratando-se de uma interpretação artística. Sua composição busca evocar o adro do Rosário como espaço de memória, fé e ancestralidade, incorporando simbolicamente o antigo cemitério que ali existiu, representado pelas cruzes que circundam a igreja.

Mais do que uma representação arquitetônica, a cena procura traduzir visualmente a dimensão simbólica do lugar: um território onde religiosidade, cultura popular e história afrodescendente se entrelaçam. 

A presença do Reinado, das práticas devocionais e dos elementos funerários remete à continuidade da memória coletiva, evidenciando formas de resistência, pertencimento e ressignificação diante do apagamento histórico.

Trata-se, portanto, de uma imagem e vídeo construídos para provocar reflexão — não sobre o que se vê, mas sobre o que foi silenciado, transformado e preservado no imaginário e nas práticas culturais de Itaúna.


Honorable Mention for “Pedra Negra”: Afro-Brazilian Memory and Cultural Heritage in Focus

The research project “Reinado, Folklore and Popular Culture in Itaúna: The Rosário Courtyard as a Sacred Territory of Afro-Brazilian Memory”, presented under the pseudonym “Pedra Negra”, received the 1st Honorable Mention at the prestigious Silvio Romero National Competition.

Among 121 submissions from across Brazil, the work stood out for its analytical depth and interdisciplinary approach, positioning itself alongside some of the most innovative research in the fields of folklore, cultural heritage, and Afro-Brazilian studies.

Organized by the Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), the competition is one of the most traditional academic forums dedicated to the study of Brazilian popular culture. Its evaluation process involves scholars from leading institutions, including federal universities recognized for their contributions to anthropology, history, and ethnomusicology.

The awarded research examines the Reinado tradition and the Rosário courtyard in Itaúna as a sacred space of Afro-descendant memory. It highlights how religious practices, collective rituals, and historical experiences intertwine to produce a living cultural heritage.

Particular emphasis is given to the historical presence of an old cemetery in the area, understood not merely as a physical site, but as a symbolic territory of belonging, dignity, and resistance. The study argues that even in the absence of visible material structures, memory persists through cultural practices and collective identity.

This recognition reinforces the relevance of local history within broader academic debates. It demonstrates that studies grounded in specific regional contexts can contribute significantly to national and international discussions on memory, heritage, and Afro-Brazilian culture.

Furthermore, the award strengthens ongoing efforts to recognize and preserve the Rosário site as an essential component of cultural heritage, particularly in relation to Afro-descendant history in Brazil.

By receiving this distinction, the research gains greater visibility and becomes part of the academic archive of the CNFCP, where it will be accessible to scholars, students, and institutions interested in the subject.