As Mãos que construíram Sant'Ana
Em 1831, Sant'Ana do Rio São João Acima era uma freguesia em transformação.
Pequena em suas
dimensões, mas muito mais complexa do que uma simples descrição de seus
moradores poderia sugerir.
Naquele ano, homens, mulheres, crianças, trabalhadores livres, pessoas escravizadas e libertas viviam em diferentes núcleos familiares registrados nas chamadas listas nominativas de habitantes.
Esses documentos, produzidos para recensear a
população, acabaram preservando algo ainda mais valioso: fragmentos da vida
cotidiana de uma sociedade do século XIX.
Entre nomes,
idades, cores, condições jurídicas e relações familiares, aparecem também os ofícios.
E são eles que
permitem enxergar uma Sant'Ana que muitas vezes permanece escondida quando
olhamos apenas para os nomes de proprietários, autoridades e personagens
considerados importantes pela memória tradicional.
Havia quem trabalhasse na terra. Havia quem construísse casas, produzisse ferramentas, fabricasse calçados e preparasse roupas.
Havia também mulheres que, dentro de
suas próprias casas ou em pequenos espaços de produção, transformavam fibras em
fios e fios em tecidos. Eram as mãos que faziam a freguesia funcionar.
Entre os
registros ocupacionais, um número chama especialmente a atenção: 284 mulheres
aparecem como fiadeiras na amostragem analisada. O dado é extraordinário não
apenas pela quantidade, mas pelo que ele revela.
A fiação era uma atividade fundamental para a produção de tecidos e vestimentas. Preparar o fio exigia conhecimento, habilidade manual, tempo e experiência.
Embora muitas
vezes realizado no espaço doméstico, esse trabalho possuía importância
econômica e fazia parte de uma cadeia produtiva muito maior.
Essas mulheres
não aparecem apenas como integrantes de suas famílias, elas aparecem como trabalhadoras.
Muitas eram
negras ou pardas e viviam em diferentes condições jurídicas e familiares. Entre
elas estavam mulheres solteiras, casadas e viúvas. Seus registros ajudam a
perceber que o trabalho feminino estava profundamente integrado à economia
cotidiana da freguesia.
Ao lado das fiadeiras, aparecem também tecedeiras, costureiras, rendeiras e parteiras. São ocupações diferentes, mas que possuem algo em comum: estavam diretamente relacionadas à produção, ao cuidado e à manutenção da vida comunitária.
A
história econômica de Sant'Ana também passava pelas mãos dessas mulheres.
Os registros
masculinos revelam outro conjunto de atividades indispensáveis. Havia lavradores,
responsáveis pelo trabalho agrícola; jornaleiros, que ofereciam sua força de
trabalho em troca de pagamento por jornada; carpinteiros, responsáveis por
construir e reparar estruturas de madeira; ferreiros, cuja atividade era
fundamental para produzir e consertar ferramentas e objetos de metal; e sapateiros,
responsáveis por um dos elementos básicos da vestimenta.
Também
encontramos alfaiates, carreiros de bois, pedreiros, oleiros, paneleiros,
telheiros, entalhadores, sacristães e mestres de primeiras letras, entre outras
atividades.
Cada profissão
revela uma necessidade.
O lavrador
produzia.
O carreiro
transportava.
O ferreiro
fabricava e reparava instrumentos.
O carpinteiro
construía.
O pedreiro
levantava paredes.
O sapateiro
produzia calçados.
O alfaiate
confeccionava roupas.
A fiadeira
preparava o fio.
A tecedeira
transformava o fio em tecido.
A costureira dava
forma às vestimentas.
A parteira
ajudava a trazer novas vidas ao mundo.
Assim, quando reunimos esses ofícios, percebemos uma economia muito mais diversificada do que a imagem de uma pequena freguesia rural poderia fazer imaginar.
Grande parte
desses trabalhadores era formada por pessoas classificadas nos documentos como pretas,
pardas, crioulas ou africanas.
Isso é
especialmente importante para compreender a formação histórica de Sant'Ana do
Rio São João Acima.
A população negra
e mestiça não estava presente apenas como força de trabalho nas atividades
agrícolas. Ela também participava de diferentes ofícios especializados, da
produção artesanal, dos serviços, do transporte e das atividades que
sustentavam o cotidiano da comunidade.
Esses registros
ajudam, portanto, a superar uma visão simplificada segundo a qual a população
negra estaria restrita às atividades mais pesadas ou exclusivamente ao trabalho
rural. Os documentos mostram outra realidade.
Mostram saberes.
Mostram profissões.
Mostram especializações.
E mostram pessoas
que dominavam técnicas indispensáveis à vida econômica e social da freguesia.
Existe uma dificuldade para quem pesquisa a história do cotidiano: grande parte do trabalho realizado por essas pessoas não deixou monumentos.
Uma igreja pode
permanecer de pé durante séculos.
Uma casa antiga
pode conservar suas paredes.
Um documento pode
preservar o nome de um proprietário.
Mas quem produziu
os tijolos? Quem trabalhou a madeira? Quem forjou as ferramentas? Quem costurou
as roupas? Quem preparou os fios? Quem conduziu os animais? Quem plantou e
colheu? Quem ajudou mulheres durante o parto?
Essas pessoas
também construíram Sant'Ana.
Suas obras,
entretanto, muitas vezes desapareceram junto com o uso cotidiano.
O que permanece
são pequenos vestígios documentais: um nome, uma profissão, uma idade, uma
condição jurídica, uma anotação feita há quase dois séculos.
É justamente
nesses fragmentos que o historiador pode reencontrar parte dessas trajetórias. As
listas nominativas em 1831 não foram produzidas para contar histórias
individuais. Seu objetivo era administrativo e estatístico. Mas, quase duzentos
anos depois, elas permitem outra leitura.
Quando observamos
uma fiadeira, um lavrador, um ferreiro, uma costureira ou um carreiro de bois,
não estamos diante de uma simples profissão registrada em uma tabela.
Estamos diante de
uma pessoa que possuía conhecimentos, relações familiares, necessidades,
estratégias de sobrevivência e um lugar dentro daquela sociedade. Por isso,
olhar para Sant'Ana em 1831 significa também olhar para suas mãos.
Mãos negras.
Mãos pardas.
Mãos livres.
Mãos escravizadas.
Mãos de mulheres
e homens.
Mãos que fiavam.
Mãos que teciam.
Mãos que
plantavam.
Mãos que forjavam
o ferro.
Mãos que
trabalhavam a madeira.
Mãos que
costuravam.
Mãos que faziam
sapatos.
Mãos que
conduziam carros de bois.
Mãos que
carregavam.
Mãos que
construíam.
Mãos que
cuidavam.
Eram essas mãos que, todos os dias, davam forma à vida de Sant'Ana do Rio São João Acima. Muito antes de existir a Itaúna que conhecemos hoje, havia uma comunidade sendo construída pelo trabalho cotidiano de milhares de pessoas.
Conhecer essas
histórias é também reconhecer que a formação de nossa terra não foi obra de
poucos. Foi uma construção coletiva. E algumas das mãos que a construíram ainda
podem ser encontradas, quase dois séculos depois, nas páginas das listas
nominativas de 1831.
CENSO 1831
@CAMI
– COLEÇÃO AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE
Pesquisa: Charles
Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG
Fonte: Reinado,
folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado
da memória afrodescendente (2025), p 18-43.
Nota: Imagem meramente ilustrativa, produzida como representação artística inspirada nos trabalhadores, trabalhadoras e ofícios registrados nas listas nominativas de 1831. A composição não representa uma cena histórica específica, mas busca evocar a diversidade do trabalho e a participação da população negra e parda na formação econômica e social da antiga freguesia de Sant'Ana do Rio São João Acima.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407






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