Ritual de Descoroamento
da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna
O texto do Professor Geraldo Fonte
Boa registra o ritual de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D.
Sãozinha), Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do
Rosário de Itaúna.
A cerimônia, realizada durante seu
velório, é apresentada como uma manifestação rara e profundamente simbólica da
tradição congadeira, marcada pela despedida de uma liderança que, por décadas,
esteve à frente da organização e condução dos festejos do Reinado na cidade.
Antes de descrever o ritual, o autor
contextualiza a importância de D. Sãozinha para a comunidade congadeira. Além
de exercer a função de Rainha Perpétua, sua residência servia como quartel de
guardas tradicionais do Reinado, tornando-se um importante espaço de
preservação da fé, da cultura e das práticas religiosas ligadas à devoção a
Nossa Senhora do Rosário e a Santa Ifigênia.
Sua atuação estava diretamente
associada à manutenção das festividades anuais, que mobilizam guardas,
capitães, familiares e devotos em torno de uma tradição transmitida entre
gerações.
O velório foi marcado por homenagens
realizadas pelos capitães e integrantes das guardas, que expressaram sua
despedida por meio de orações e cânticos. Em respeito à solenidade do momento,
os instrumentos tradicionalmente presentes nas festas permaneceram silenciados,
reforçando o caráter de luto e reverência à rainha falecida.
O ritual de descoroamento teve início
algumas horas antes do sepultamento, sob a condução do Capitão-Mor da Irmandade
das Sete Guardas. Sobre o corpo da rainha foram colocados os símbolos de sua
função: a coroa, o manto e o cetro. A cerimônia desenvolveu-se por meio de
orações e cânticos responsoriais, nos quais a assembleia acompanhava as
invocações conduzidas pelos capitães. Em seguida, realizou-se a retirada ritual
desses objetos sagrados.
Utilizando bastões, os capitães
erguiam a coroa, o manto e o cetro sem tocá-los diretamente com as mãos,
conduzindo-os ao longo do corpo da falecida até entregá-los às suas filhas e
netas. Esse gesto simbolizava o encerramento de sua missão terrena como Rainha
Perpétua e a devolução das insígnias que representam a autoridade espiritual e
cerimonial exercida durante sua vida.
Após a retirada dos símbolos, os
participantes entoaram cânticos finais que confirmavam o descoroamento da
rainha e exaltavam sua trajetória de devoção. O ritual foi encerrado com vivas
a Nossa Senhora do Rosário e ao Rosário de Maria, reafirmando a dimensão
religiosa da cerimônia e a crença na continuidade espiritual da missão cumprida
por D. Sãozinha.
O texto também destaca que as
homenagens prosseguiram durante o cortejo fúnebre, na Capela do Rosário e no
cemitério, sempre acompanhadas por cânticos e manifestações de respeito à
rainha falecida.
Ao final, o autor ressalta que a
coroa permaneceu sob a guarda de suas descendentes, responsáveis por definir
quem assumiria futuramente a função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia,
garantindo a continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.
Por fim, o texto contextualiza
historicamente a existência da Capela das Sete Guardas, vinculando sua criação
às tensões ocorridas na década de 1940 entre congadeiros e autoridades
eclesiásticas.
Dessa forma, o ritual de
descoroamento é apresentado não apenas como uma despedida individual, mas como
uma expressão da memória coletiva, da resistência cultural e da permanência das
tradições afro-brasileiras que constituem o Reinado de Nossa Senhora do Rosário
de Itaúna.
FONTE BOA,
Geraldo. Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2023/12/ritual-de-descoroamento-da-rainha.html . Acesso em consulta realizada para esta
síntese.
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Síntese, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Mais registros sobre a Rainha
Itaúna se despede de Dona Sãozinha, Rainha do Reinado
Expoente da cultura e folclore religioso
Nota sobre a imagem de capa
A imagem de capa foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), a partir de referências visuais, históricas e culturais relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna/MG. Trata-se de uma representação artística inspirada na tradição congadeira, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
