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segunda-feira, 24 de junho de 2024

JESUS DO BANJO

  A poeta Vera Alice dos Santos, em seu relato poético sobre seu pai, Jesus Taveira dos Santos, traça um retrato afetuoso e reverente de um homem que, apesar das dificuldades e simplicidade da vida, deixou um legado marcante tanto no âmbito do trabalho quanto no universo musical. Conhecido carinhosamente como "Jesus do banjo" ou "Figo", foi um trabalhador dedicado e um músico talentoso, cuja presença trazia alegria a todos ao seu redor.

Jesus Taveira exerceu sua função nas décadas de 1950 e 1960 na Cia. Industrial Itaunense. A poeta recorda com carinho que ele trabalhava descalço, “não gostava de sapatos ou botinas”, uma escolha que reflete uma autenticidade e ligação profunda com suas raízes e a realidade de seu tempo. Esse detalhe aparentemente simples, destacado por Vera Alice, poderia simbolizar uma resistência silenciosa à padronização e uma conexão visceral com o chão que pisava, reforçando a imagem de um homem genuíno e resiliente.

Além de sua vida laboral, Jesus Taveira era conhecido por seu talento musical. Durante os dias da semana, à noitinha, ele entoava canções com uma voz mansa e suave, criando momentos de comunhão e alegria familiar, onde todos faziam coro. Esses momentos eram pequenas celebrações diárias, onde a música servia como um laço de união e felicidade.

“Jesus do banjo” transformava-se no músico vibrante que dedilhava com destreza as cordas de seu banjo. Suas apresentações nas festas juninas, serenatas e encontros dos amantes da música eram aguardadas com expectativa, pois ele conseguia, através de seu talento, criar uma atmosfera de alegria e celebração que encantava a todos.

Através das memórias da poeta Vera Alice, emerge a figura de um homem que, apesar das limitações e dificuldades da vida, encontrou na música uma forma de expressão e um meio de alegrar aqueles ao seu redor. Sua dedicação tanto ao trabalho quanto à música é um testemunho de sua força e paixão pela vida. O legado de Jesus Taveira, portanto, não é apenas de um trabalhador esforçado, mas também de um artista cuja música continua a ressoar nas memórias e corações daqueles que tiveram a sorte de ouvi-lo.

Vera Alice dos Santos, com sua narrativa poética, consegue capturar a essência de seu pai, oferecendo ao leitor uma visão íntima e tocante de um homem cuja simplicidade e talento deixaram uma marca inesquecível na vida de sua família e comunidade itaunense.


Veja o incrível: Acróstico -  Jesus do Banjo 


Referências:

Arte, pesquisa e organização: Charles Aquino

História oral e escrita: Poeta Vera Alice dos Santos em 2016

SANTOS. Vera Alice do. Essências. 1ª Coletânea do Grupo de Escritores itaunenses. Ed. Vide, 2015, p. 119.


sábado, 27 de abril de 2024

ASSOCIAÇÃO DE SANTA ZITA EM ITAÚNA

 

   Hoje, 27 de abril, celebra-se o dia de Santa Zita, virgem de Lucca, venerada padroeira das “Empregadas Domésticas”. Nascida em 1218 no povoado de Monsagrati, localizado perto da cidade de Lucca, na região italiana da Toscana, Zita vinha de uma modesta família camponesa. Envolvida no trabalho das famílias opulentas da nobreza, ela receberia sustento e roupas em troca de seu serviço dedicado. No entanto, este arranjo assemelhava-se a um “regime de servidão”, pois ela apresentava-se como uma dependente perpétua das famílias a quem servia. 

   Entre as décadas de 50 e 70, na próspera cidade de Itaúna, localizada na região Centro-Oeste de Minas Gerais, um notável coletivo de mulheres altruístas, predominantemente de ascendência africana, formou a Associação de Santa Zita. Sobre esse período, tivemos a oportunidade de conversar com quatro ex-trabalhadoras domésticas que faziam parte da Associação Santa Zita de Itaúna. Estas pessoas, Dona Edite Marques de Oliveira Melo (80 anos), Dona Geni Ferreira Pinto (86 anos), Dona Vicência Maria de Jesus (94 anos), e sua irmã, Dona Custódia Maria da Cruz Santos (96 anos), ainda emanam simpatia, vitalidade e devoção.


   Nas entrevistas, todas expressaram o profundo impacto que a Associação Santa Zita teve nas suas vidas, tanto em termos de crescimento espiritual como de desenvolvimento profissional. O Padre José Ferreira Neto, que desempenhou um papel fundamental de “guardião” da associação, foi amplamente citado com blandícia por todas as ex-integrantes. Recordavam-no com grande saudosismo, reconhecendo que, embora pudesse ter sido visto por alguns como um sacerdote vigoroso, porém, para elas foi um defensor amável e lépido. Durante entrevista, uma das participantes revelou que havia organizado uma apresentação teatral improvisada para o Padre Zé Netto, apesar de sua aversão a surpresas. No entanto, o resultado revelou-se inesperadamente agradável, pois “o padre caiu na gargalhada” e apreciou a experiência.

   A primeira missa era celebrada às 6h na Igreja da Matriz, momento que elas lembram ter participado antes de iniciarem o seu labor às 7h. Refletindo sobre a história de Santa Zita, uma das ex-domésticas relembrou as árduas horas que dedicou à casa dos patrões. Trabalhando incansavelmente sete dias por semana, carregou uma carga de trabalho superior a 8 horas por dia — “O patrão gostava de almoçar e jantar”. Contudo, para além das suas funções profissionais dentro das casas destas famílias, estas trabalhadoras domésticas também realizavam um trabalho afetivo e social, muitas vezes cuidando de crianças na ausência dos seus ocupados tutores.

   Neste período específico, o Dr. Célio Soares de Oliveira, Prefeito Municipal em exercício, aprovou oficialmente a Lei nº 509, em 29 de março de 1960. O artigo primeiro desta lei concedia permissão para doação de um terreno na vila Nogueira Machado à "Associação de Santa Zita". Os artigos segundo e terceiro estipulavam que este terreno se destinava à construção de uma residência para “as domésticas idosas e desamparadas”. Porém, se nada fosse construído no prazo de três anos, o terreno reverteria a “Patrimônio Municipal”.

   Já em 30 de janeiro de 1963, o prefeito alterou a Lei nº 509, passando pela Lei nº 627. A modificação refere-se especificamente ao artigo primeiro, que passou a ter a seguinte redação: “Fica o senhor Prefeito Municipal autorizado a doar à Associação de Santa Zita, 1 (um) lote de terreno com 600 m2 (seiscentos metros quadrados) [...] à Rua Antônio Orlando, nesta cidade”.

   As fiéis seguidoras de Santa Zita de Itaúna relembraram com alegria as diversas visitas e trabalhos espirituais que realizaram ao lado do padre Netto em diferentes localidades de Itaúna, especialmente no Córrego do Soldado. Além disso, em 1972, o Cônego José Netto organizou uma “romaria” à Basílica de Nossa Senhora Aparecida com as “domésticas de Itaúna” durante o “Ano Marial”. Este evento reuniu devotos de todos os estados, que foram calorosamente recebidos pelo Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. A história desta experiência inesquecível foi rememorada por todas em seus depoimentos.

   Conta-se que aqueles que fizeram a “peregrinação” ao Santuário de Aparecida, buscando também a intercessão de Santa Zita, tiveram suas orações atendidas no mesmo ano. Ainda na década de 1972, um marco significativo foi alcançado com a promulgação da Lei 5.859/1972, que visava definir os direitos dos trabalhadores domésticos e garantir-lhes uma vida profissional mais digna. Uma devota seguidora de Santa Zita, diz se lembrar deste período, nos relata recordar vividamente, sobretudo, do momento em que cumpria diligentemente as suas tarefas diárias de limpeza e ouviu as notícias transmitidas pela rádio. Pouco depois, o seu empregador abordou-a e informou-a de que, a partir desse dia, ela teria direito a todos os benefícios exigidos pela lei recém-promulgada.

   No interior da igreja Matriz de Sant'Ana em Itaúna, comumente chamada de Igreja Matriz, encontra-se a venerada imagem de Santa Zita, que anualmente era adornada com uma coroa pelas irmãs devotas e com procissão ao redor. O estimado Maestro Henrique cuida de alguns artefatos que foram gentilmente cedidos para nossa pesquisa, entre eles o estandarte e diversos itens associados à Associação Santa Zita. O Maestro teve um papel significativo guiando-nos até às irmãs devotas e oferecendo “pistas” valiosas ao longo de nossa jornada investigativa.

   A ausência de Dona Ivolina Gonçalves foi profundamente sentida na esfera administrativa. Esta associação teve também o seu valor na ajuda às pessoas que se encontravam desempregadas, onde eram recomendadas, muitas vezes pela administradora, que rapidamente conseguia colocá-las num local de trabalho “casa de família”. Com a morte da coordenadora em 1977, o grupo ficou disperso e não deu mais seguimento com a Associação.

   Vale ressaltar dois detalhes dignos de nota. O primeiro detalhe envolve uma iniciativa legislativa conhecida como Projeto de Lei Municipal número 08/2011, de autoria do Edil Lucimar Nunes Nogueira e aprovada oficialmente por Lei de número 4.545 pelo Prefeito Municipal Eugênio Pinto em 18 de fevereiro de 2011. Essa lei instituiu o “Dia Municipal da Empregada Doméstica” em Itaúna, que deverá ser comemorado anualmente no dia 27 de abril. É importante ressaltar que esta data comemorativa foi incluída no Calendário Oficial de Eventos de Itaúna. Passando para o segundo detalhe, a Associação Santa Zita possuía CNPJ válido com o CEP número 35680-030, no município de Itaúna, iniciando em 31/07/1972 com atividades de associações de defesa dos direitos sociais e organizações associativas ligadas à cultura e arte.

   O compromisso inabalável da virgem de Lucca com a caridade cristã conquistou seu amplo reconhecimento entre os pobres. Apesar de viver do trabalho, ela permaneceu firme em sua missão. Ao longo da sua vida, Santa Zita dedicou-se a prestar assistência aos menos favorecidos e aos doentes. Esta devoção altruísta persistiu até a sua morte, aos sessenta anos, em 27 de abril de 1278.

   Com o passar dos anos, a notícia de sua santidade se espalhou e, em 1652, um fato surpreendente foi revelado após a exumação de seu corpo — estava perfeitamente conservado, desprovido de quaisquer sinais de decomposição, o cadáver havia secado e transformado em estado mumificado. Assim, este acontecimento extraordinário solidificou a sua canonização em 1696, sancionada pelo Papa Inocêncio XII. Em 11 de março de 1955, o Papa Pio XII proclamou Santa Zita "protetora universal das servas” ou “padroeira das empregadas domésticas”.

   Atualmente, seu corpo continua repousando em uma capela que leva seu nome, encerrada em um relicário de vidro, venerado pelos devotos, localizada no interior da Basílica de São Frediano, igreja romana em Lucca, na Itália. Hoje recordamos também o 746º aniversário da morte desta santa medieval que viveu no século XIII e continua a viver no coração dos seus fiéis.

   Assim, utilizando registros imagéticos, relatos orais, fontes primárias e impressas, reunimos informações valiosas sobre esta associação e essas incríveis trabalhadoras domésticas, que consideramos um testemunho significativo dos aspectos tangíveis e intangíveis do patrimônio cultural de Itaúna.

Padre José Ferreira Netto


Primeiro grupo da Associação de Santa Zita em Itaúna 

Monsenhor Hilton Gonçalves de Sousa - Monsenhor Álvaro Negromonte


Referências: 

Texto, pesquisa e arte: Charles Aquino - Profissão Historiador Registro nº 343.

Apoio a pesquisa: Luiz Assis

Apoio a pesquisa: Maestro Henrique

Apoio a pesquisa: Professor Pe. José Raimundo Batista Bechelaine

domingo, 24 de março de 2024

COMÉRCIO TRANSATLÂNTICO


    Dia 25 de março — "Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos" é reconhecido pelas Nações Unidas. Esta data significativa serve como um lembrete dos esforços globais em curso para erradicar as injustiças enraizadas no comércio de escravos. Enfatiza também o papel crucial da educação no reconhecimento do profundo impacto deste acontecimento histórico na nossa sociedade moderna e na abordagem das suas consequências duradouras. Ao longo da história, mais de 15 milhões de indivíduos, incluindo homens, mulheres e crianças, foram transportados à força através do Atlântico.
    Numa mensagem de vídeo, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, enfatizou a importância de honrar a memória dos milhões de indivíduos afrodescendentes que suportaram as atrocidades da escravatura e do comércio transatlântico de escravos. Salientou ainda que este comércio estabeleceu e perpetuou um sistema mundial de exploração que persistiu durante mais de quatro séculos, devastando profundamente famílias, comunidades e economias.
    Ao refletir sobre a resiliência daqueles que sofreram sob a crueldade dos traficantes e proprietários de escravos, Guterres reconhece as contribuições significativas feitas pelos indivíduos escravizados para a cultura, o conhecimento e as economias dos países para os quais foram transportados à força. Embora o comércio transatlântico de escravos tenha terminado há mais de dois séculos, o chefe da ONU reconhece que as ideologias prejudiciais da supremacia branca que o alimentaram ainda persistem hoje.
    Guterres sublinha a necessidade urgente de desmantelar as consequências duradouras da escravatura e do comércio transatlântico de escravos, combatendo ativamente o racismo, a injustiça e as desigualdades, e promovendo comunidades e economias inclusivas que proporcionem oportunidades iguais para todos viverem em paz e dignidade.

Secretário-geral da ONU, António Guterres



Censo em 1831 Sant'Ana do Rio São João Acima (Itaúna/MG)



Referências:
Organização, texto e arte: Charles Aquino

ONU News: https://news.un.org/pt/story/2021/03/1745582

UFMG Cedeplar - Poplin-Minas

Imagens ilustrativa: Johann Moritz Rugendas

Imagem Ilustrativa: MultiRio – História do Brasil, O tráfico negreiro. "Os compartimentos de um navio negreiro. Gravura publicada em 1830 no livro Notices of Brazil in 1828 and 1829, de R. Washl. Domínio público, Arquivo Nacional – Ministério da Justiça".

 

sexta-feira, 22 de março de 2024

DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Todos os anos, no dia 21 de março, é (re)lembrado o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu esta data em memória das manifestações contra a Lei do Passe na África do Sul. Foi neste dia de 1960 que eclodiram os protestos contra a lei que impunha restrições à circulação da população negra. Infelizmente, estes protestos foram recebidos com força brutal por parte do exército sul-africano, resultando no trágico “massacre de Sharpeville”, onde 69 pessoas perderam a vida e outras 186 ficaram feridas. Reconhecendo a importância deste evento, a ONU declarou oficialmente o dia 21 de março como um dia para aumentar a conscientização sobre a discriminação racial em 1966.

Após o ano de 2023, o dia 21 de março também passa a ser (re)lembrado como o Dia Nacional das Tradições de Raízes Africanas e das Nações do Candomblé. A Lei 14.519/23 foi sancionada em 2023 pelo presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva.


Referências:




Imagem Ilustrativa: Pinterest

Organização e Pesquisa: Charles Aquino


sábado, 9 de março de 2024

AFRO-ITAUNENSES

Como cidadão itaunense e descendente de herança afro-brasileira, senti-me obrigado a sair da zona de estudos e expressar publicamente minha preocupação e indignação. Acredito que a frase acima não confrontou apenas a narrativa histórica do  município de Itaúna, mas também a ancestralidade de seus habitantes, que inclui a escravização de minha trisavó paterna, o nascimento da minha bisavó após a promulgação da Lei do Ventre Livre, e o eventual nascimento de meu avô, que só conseguiu o direito ao registro oficial de nascimento aos 25 anos em 1937, que posteriormente fixaram residência em Itaúna, local de descanso final de uma jornada marcante, deixando um valioso legado para seus descendentes — o direito à educação. 
   
Ao realizar pesquisas rotineiras para elaboração de meus trabalhos, me deparei com um texto complexo em todos os sentidos que está disponível no site da Prefeitura de Itaúna/MG. Assim, a narrativa histórica se apresentou confusa dificultando uma compreensão mais precisa. Após uma segunda leitura minuciosa, finalmente comecei a entender que o texto se tratava da “permuta de padroeiras” no município do século XIX. Mesmo tentando compreender a informação de que as “igrejas foram trocadas” naquela época, imagino que seria difícil transposição de duas construções, no entanto, dadas as informações de livros de história do município que registram esse acontecimento, percebi que seria uma troca de oragos, e não das edificações. 

Portanto, seria aceitável considerar isso como um mero “deslize histórico”, podendo até ser enviada uma mensagem à Secretaria de Cultura e Turismo de Itaúna, pedindo a retificação do texto, cujo material apresentado, nem sequer tiveram a preocupação de fornecer as referências adequadas e necessárias. À medida em que realizava a leitura mais atenta do texto, descobri que as informações, em parte, eram meramente baseadas em “achismos”, ou seja, um texto totalmente abstrato e desconecto da história do município. Porém, o mais alarmante ainda estava por vir, pois neste texto trazia uma declaração de que os negros naquela época “roubavam” dentro da igreja do arraial de Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna. Eis aqui, parte do trecho retirado do texto que está disponível no site da prefeitura de Itaúna:

“As igrejas foram trocadas. O problema é que os padres queriam manter as padroeiras. Sant'Ana, dos portugueses, agora era dos negros. Senhora do Rosário, dos negros, virou padroeira dos brancos. Os negros não aceitaram. Toda noite, entravam na Matriz e roubavam a Imagem de Nossa Senhora do Rosário e levavam para a nova Capela, no alto do Morro. Sendo lenda ou não, fato é que essa história inspirou a festa mais tradicional da cidade: o Reinado.”

Como mencionado no texto acima, sendo lenda ou não, se registrou que os pretos que faziam parte da comunidade de Itaúna eram ladrões. Neste momento ficou evidente que os (in)responsáveis desta informação, estavam totalmente equivocados. Este incidente representa, no meu ponto de vista, uma violação e rompimento significativo do limite histórico, cultural e ético em toda a história do município, minando as extensas pesquisas e documentações registradas por historiadores e pesquisadores ao longo dos anos. Vale ressaltar que no censo inicial realizado em 1831, aproximadamente 70% da população do arraial de Santana (hoje Itaúna) era de herança afrodescendente. 

Até o momento presente, não encontrei nenhum registro ou declaração de qualquer historiador ou publicação que indique ou declare que os pretos naquela época, tenham praticado roubos à paróquia de Santana de Itaúna. Ao analisar cuidadosamente essa “barbárie histórica”, expresso a minha mais profunda frustação e a minha preocupação com a gestão e divulgação da história do nosso município.  É provável que muitos indivíduos que pesquisaram a história de Itaúna, neste período em que continua disponível essa matéria no site da Prefeitura, tenham encontrado essas informações, que supostamente seriam de “utilidade pública”, principalmente para a comunidade itaunense. No entanto, este não é o caso. 

É imprescindível que essas informações sejam prontamente corrigidas. Proponho que os textos sejam referenciados de forma completa e correta. Além disso, recomendo expressar um sincero pedido de perdão por esta violação histórica da memória dos ancestrais e descendentes afro-brasileiros da comunidade itaunense, que são bens culturais inestimáveis, tangíveis e intangíveis, transmitidos através de gerações. Neste sentido, invoco as palavras do artista Belchior e peço permissão para incorporar duas palavras em sua canção “Roupa Velha Colorida”: No presente a mente, o corpo é diferente, e o passado de “insultos e acusações” é uma roupa que não nos serve mais... precisamos rejuvenescer!” Só assim, acredito que terei tranquilidade para retornar meus estudos e pesquisas, mas mantendo-me vigilante.  
Charles Aquino, em 6 de março 2024



Reinado em Itaúna


Nota: Ao apurar a postagem no site da Prefeitura hoje (11/03/2024), houve uma reformulação no texto, mas até o momento não foi registrada nenhuma nota referente à postagem antiga. Disponível em: Conjunto Arquitetônico do Morro do Rosário


Arte e organização: Charles Aquino
Imagem meramente ilustrativa: Pinterest


quinta-feira, 2 de junho de 2016

IRMA BENIGNA

Irmã Benigna Victima de Jesus

Em 1936 foi designada a prestar serviços no Hospital “Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, no município de Itaúna, local este, em que se diplomou como técnica de enfermagem.
No ano de 1943, foi nomeada Madre Superiora, neste cargo, fundou uma maternidade que dava assistência às mães carentes da cidade. 
Em uma das Atas do Hospital ela escrevia: “Assumi a direção da Casa de Caridade Manoel Gonçalves no dia primeiro de janeiro de 1943. Procurei cumprir o dever que me foi imposto como também na medida de minhas forças, mantive como possível a minha capacidade, a ordem e o respeito dentro do Hospital” [...]
No ano de 1947, depois de doze anos de dedicação e trabalho, Irmã Benigna encerrava seus serviços como superiora do Hospital de Itaúna.


MOVIMENTO DOS ENFERMOS

O número de 7.409 doentes aceitos durante esses 21 anos de existência: examinados pelos Médicos assistentes e feito diagnósticos; foram internados e receberam o necessário segundo a prescrição médica. Deles 6.917 receberam alta completamente restabelecidos e faleceram 492.

Serviços externos gratuitos da policlínica, funcionam regularmente e tiveram o seu movimento aumentando.

Para os externos foram aplicados:

Curativos
46.628
Aplicação de Injeção
48.910
Pequenas operações
9.112
Lavagens vaginais
8.267
Exames de urina
12.997
Consultas
38.912
Radiações-ultra-violeta
10.590


Serviços internos das enfermarias e administração interna do hospital continuam a cargo das Irmãs Auxiliares da Piedade; com dedicação e proficiência desempenhando todo serviço do hospital no zelo e o amor no cumprimento de seus deveres, tem despertado o mais profundo reconhecimento, gratidão dos enfermos e desvalidos. São examinados pelos Médicos e assistentes.

Para os internos foram aplicados:

Injeções
62.240
Curativos
50.108
Pequenas operações
10.201
Grandes operações
12.000
Lavagens vaginais
11.212
Exames de urina
13.402
Radiações-ultra-violeta
1.190

Saiba mais em:



Ata da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira
Irmãs Auxiliares da Piedade
Registrado sob nº 16.539 às fls 272 vº do Livro A-XI.
Acervo: Prof. Marco Elísio
Organização e pesquisa: Charles Aquino



ENFERMEIRO JOSIAS


Vida e o Trabalho do Enfermeiro Josias Alves de Moura

   Josias Alves de Moura dedicou grande parte de sua vida profissional à enfermaria da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, mais conhecida como Hospital Antigo. Trabalhando de 1938 a 1979, Moura exerceu um papel crucial como enfermeiro, sendo responsável tanto pelo gerenciamento da enfermaria quanto pelo cuidado direto dos pacientes. Nascido em Cláudio, MG, em 12 de março de 1919, ele faleceu em Itaúna em 24 de novembro de 1983.

   Moura é lembrado por seu compromisso inabalável com a profissão, demonstrando um alto nível de profissionalismo e organização. Estas qualidades foram fundamentais para manter a eficiência e a qualidade do atendimento no hospital. No entanto, o que realmente destacou seu trabalho foi o compromisso e amor com que ele exerceu suas funções, um atributo que permeava todas as suas ações e que deixou uma marca duradoura em seus colegas e pacientes.

   Josias Alves de Moura incorporou um forte senso de dever e responsabilidade, características essenciais para um profissional de saúde. Seu compromisso é evidente pelo longo período em que serviu no Hospital Antigo, indicando uma dedicação não apenas à instituição, mas também aos pacientes que dependiam de seus cuidados. A capacidade de Moura para manter a ordem e a eficiência na enfermaria é notável. Em um ambiente hospitalar, onde a organização pode significar a diferença entre a vida e a morte, seu papel como gerente era crucial. Sua habilidade em gerenciar a enfermaria com eficácia provavelmente contribuiu para um ambiente de trabalho mais seguro e eficiente, beneficiando tanto os pacientes quanto os colegas de trabalho.

   O aspecto mais destacado do legado de Moura foi a firmeza e a organização com que ele executava suas funções que foi vital para proporcionar um cuidado de qualidade e estabelecer um vínculo de confiança com os pacientes. O compromisso de Moura por sua profissão e pelos pacientes teria fomentado um ambiente de compaixão e apoio, essencial para a recuperação e bem-estar dos enfermos.

   Josias Alves de Moura não foi apenas um enfermeiro dedicado, mas um exemplo de como o compromisso, o profissionalismo, a organização e, acima de tudo, o amor podem transformar um local de trabalho. Seu legado no Hospital Antigo é um testemunho da importância desses valores na profissão de enfermagem. Através de seu trabalho, Moura deixou uma marca indelével na história da instituição e na vida daqueles que tiveram a sorte de estar sob seus cuidados.


Período: 1938 a 1979
Nascimento: Cláudio / MG (12/03/1919)
Falecimento: Itaúna (24/11/1983)
Testemunho Oral Histórico: Prof. Marco Elísio
Organização e elaboração: Charles Aquino


ISMA PEREIRA FRADE

UMA BAIANA QUE AMOU ITAÚNA
Uma baiana que amou Itaúna
 Isma Pereira Frade ou simplesmente Dona Isma, nasceu em Salvador (BA) em 29 de dezembro de 1924. 

Ainda muito nova perdeu seus pais, tendo sido criada uma tia-avó Amália do Sacramento Pereira e seu marido Octaviano Marques Pereira. 

Iniciou seus estudos no Instituto Normal da Bahia e, em 1941 formou-se NORMALISTA (hoje professora primária). Ingressou no antigo IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários) através de Concurso Público.

Em 1947, no Rio de Janeiro, recebeu o seguinte desafio que ela mesma contava: "ir para uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, chamada Itaúna e lá abrir um Posto do IAPI". Como boa baiana, aceitou e desafiou e dizia: "viajei de locomotiva a vapor (Maria Fumaça), do Rio de Janeiro para Belo Horizonte e de lá para Itaúna".

Aqui chegou em 1947, sem conhecer nada nem ninguém da cidade. Havia, como há ainda hoje, uma pensão quase ao lado da Estação Ferroviária. Hospedou-se lá e, quem a conheceu sabe, tinha uma imensa facilidade de fazer amizades.

E foi o que aconteceu. Em pouco tempo era conhecida por todos. A primeira pessoa a quem ela procurou foi Sr. Prefeito Municipal, à época Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho (DR. COUTINHO), expondo-lhe sua missão aqui em Itaúna. 

Dizia ela que recebeu total apoio e, em pouco tempo conseguiu abrir a Agência do IAPI, contando, também, com a colaboração da Cia.Industrial Itaunense e Cia. Tecidos Santanense, as duas maiores empresas da cidade.

Em outubro de 1950, casou-se aqui em Itaúna com ERNESTO FRADE, bancário, natural de Formiga (MG), que veio transferido para o extinto Banco Comércio e Indústria, depois Banco Nacional. 

Desta união nasceu IONE COUTINHO, filha única do casal. Depois da Agência funcionar em diversos locais, durante o período revolucionário houve a fusão dos diversos Institutos, passando a ser o Instituto Nacional de Previdência Social e Dona Isma continuou a ser a AGENTE (Chefe da Agência).

O Instituto então adquiriu um terreno à Rua Dr. José Gonçalves, onde construiu a Agência Local, tudo sob a supervisão de Dona Isma e, conforme ela mesmo dizia, contou com a inestimável colaboração do Engº. SÉRGIO DE CASTRO, atual Secretário Municipal de Obras da Administração Municipal. 

Depois de 35 anos de profícuo e dedicado trabalho ao Instituto, decidiu aposentar-se, o que aconteceu em 1977. Em 1971, a Câmara Municipal de Itaúna concedeu-lhe, merecidamente o título de CIDADÃ HONORÁRIA DE ITAÚNA, título do qual ela muito se orgulhava, pois dizia "SOU ITAUNENSE DE CORAÇÃO".

Coincidentemente, em 1978 a Cia. Industrial Itaunense ainda em boa situação, através de sua Diretoria, decidiu fazer uma reformulação completa, moderna e mais dinâmica em seu organograma, criando Departamentos, Divisões e Setores. 

Em vista da experiência da Dona Isma na área social e da necessidade de uma empresa do porte da então Itaunense ter um setor especializado em assistência social, ela foi contratada, com o objetivo de implantar o Setor de Assistência Social, tendo sido nomeada Chefe do Setor.

Eu, pessoalmente, acompanhei Dona Isma em várias visitas que fez a diversas Empresas que já tinham o referido setor já bem estruturado e, baseada nas diversas experiências que conheceu, estruturou o Setor na Itaunense. Para que funcionasse bem, a Diretoria destinou uma verba para que ela pudesse, entre outras coisas, atender aos funcionários de qualquer cargo ou nível, oferecendo pequenos adiamentos de salários, ajuda em caso de doença, etc.

E o mais importante, com exceção da Diretoria, era a única pessoa que teve autorização para abrir uma conta bancária em nome da Cia. e assinar cheques. Em 1982, Dona Isma resolveu ingressar na política, candidatando-se a vereadora. 

Foi eleita e cumpriu o mandato de 01-02-83 a 31-12-88. Foi considerada uma boa representante do povo, especialmente dos menos favorecidos, que ela conhecia bem devido anos de experiência vividos com AGENTE do INPS e com a piora da situação financeira da Itaunense, ela decidiu parar de trabalhar definitivamente.

Por problemas de saúde, mudou-se para BOCAIÚVA (MG), indo morar com sua filha Ione que para lá se mudara desde o casamento. Os problemas se agravaram e ela foi transferida para Montes Claros, onde acabou falecendo dia 14 de julho de 2005. 

Seu sepultamento foi aqui em Itaúna, terra que tanto amou e dedicou sua vida. Houve um sentimento generalizado de perda em toda a comunidade itaunense. Perdemos a Dona ISMA do INPS. Esta é resumidamente, a vida desta grande itaunense.

Referência:
Texto: Juarez Nogueira Franco
Fonte oral: Ione Coutinho - (filha)
Organização: Charles Aquino