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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

FRANCISCO 1884

 

A JORNADA DE FRANCISCO

A narrativa a seguir é uma história fictícia, mas inspirada em documentos históricos autênticos: os anúncios de jornais do século XIX que buscavam capturar pessoas escravizadas que haviam fugido.

Esses registros, como o publicado em 1884 sobre o jovem Francisco, detalhavam com minúcia impressionante as características físicas e comportamentais das pessoas, revelando não apenas o esforço dos senhores em recapturá-las, mas também as marcas físicas e simbólicas de uma sociedade marcada pela violência e pela desumanização.

Ao construir a história de Francisco, buscamos dar vida a essas linhas secas e burocráticas dos anúncios, imaginando as emoções, os medos, as estratégias de fuga e os encontros humanos que não aparecem nos registros oficiais. 

Não se trata de julgar com os olhos do presente, mas de fazer um exercício de empatia histórica: olhar para o passado com profundidade, entendendo o contexto e reconhecendo as resistências silenciosas e corajosas de tantos homens e mulheres.

Esta é, portanto, uma ficção baseada em vestígios reais. Um convite à memória, à escuta do que os arquivos não disseram por completo — e à valorização da luta pela liberdade que moldou a história do Brasil.

 ESPERANÇA DE LIBERDADE

Em outubro de 1884, a Fazenda Medeiros, localizada em Sant’Anna de São João Acima, vivia dias de inquietação. Francisco, um jovem escravizado de 21 anos, tinha desaparecido na calada da noite, deixando para trás apenas um vazio e muitas perguntas. Pardo escuro, de estatura regular, cabelos anelados e uma expressão de determinação que desafiava o destino, ele já não podia mais suportar as correntes invisíveis que o prendiam àquela vida.

Desde cedo, Francisco era conhecido por sua inteligência e habilidade em aprender rapidamente. Apesar do trabalho árduo, ele tinha um espírito forte e alimentava um sonho proibido para muitos: a liberdade. Ele sabia que essa busca era perigosa, mas o desejo de ser dono de si mesmo superava o medo.

Na noite de sua fuga, Francisco aproveitou a escuridão para escapar pelos campos. Guiado pelas estrelas e pelo conhecimento que adquirira ao longo dos anos, ele traçou um caminho rumo às montanhas, onde esperava encontrar abrigo e talvez a ajuda de quilombos. Mas o perigo estava em todos os lugares. Os anúncios espalhados em jornais e a recompensa oferecida por José Ignácio de Mello eram um lembrete constante de que ele era caçado como um animal.

Francisco, porém, era astuto. Para confundir seus perseguidores, adotou o nome de Antônio Modesto e procurou se misturar entre os trabalhadores livres das pequenas vilas pelas quais passava. Sua capacidade de mudar de identidade, bem como sua descrição física marcante — como a verruga em um dos lados do rosto —, tornavam cada dia uma batalha para permanecer oculto.

Nessa jornada, Francisco encontrou aliados improváveis: pessoas comuns que, tocadas pela sua história e coragem, decidiram ajudá-lo. Uma dessas pessoas era Maria Clara, uma jovem viúva que, apesar dos riscos, ofereceu-lhe abrigo e informações sobre rotas seguras. Com o passar do tempo, Maria Clara e Francisco desenvolveram uma conexão profunda, unida pela esperança de um futuro melhor.

No entanto, a rede de caçadores de recompensas estava sempre um passo atrás. Em um momento de tensão, Francisco foi quase capturado ao atravessar uma pequena cidade. Foi salvo apenas graças a um grupo de quilombolas que interveio no momento certo, levando-o para um quilombo escondido nas profundezas da mata.

No quilombo denominado Catumba, Francisco encontrou mais do que proteção; encontrou uma comunidade de resistência, formada por pessoas que, como ele, tinham enfrentado o impensável em busca de liberdade. Lá, ele se tornou um líder, organizando ações para resgatar outros escravizados e lutar contra o sistema que tentava subjugá-los.

Apesar dos desafios, Francisco nunca esqueceu de onde veio nem o preço de sua liberdade. Sua história tornou-se uma lenda entre os quilombolas e as comunidades negras da região. Pouco anos depois, quando a abolição finalmente chegou, muitos se lembraram de Francisco como um símbolo de coragem e resiliência, um homem que enfrentou o impossível para conquistar aquilo que todos têm direito: a liberdade.

 Jornal A Província de Minas, nº 235
Ouro Preto, 27/11/1884

Elaboração: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

Ouro Preto, 27 de novembro, 1884 Santana de São João Acima (Itaúna/MG).

domingo, 5 de junho de 2016

MARIA ADRIANA

BISA

Maria Adriana da Silva era carinhosamente conhecida como "bisa" pela família. Segundo relatos da família, sua mãe Francisca Claudina da Silva, era escrava na posse do Cel. Thomaz de Andrade. Esse coronel era pai do Dr. Thomaz de Andrade, que atuou como advogado até a década de 1920 na cidade de Itaúna. Os depoimentos de seus netos revelam que foi ensinada a ler e escrever pela filha do coronel, que também foi sua professora, durante sua estada com a mãe na fazenda. Maria Adriana tinha apenas 9 anos quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão em 13 de maio de 1888. Ao receber a notícia  da abolição da escravatura no Brasil, a mãe de Maria decidiram ficar e continuar trabalhando na fazenda da família Andrade. Anos depois, aos 19 anos, Maria Adriana casou-se com João Camilo da Silva no município de Mateus Leme. Eles se estabeleceram lá e começaram uma família juntos.

Após a morte do marido e já em idade avançada, mudou-se para Itaúna onde residia com o filho, Aristides de Aquino, na Rua Santo Agostinho, número 67, no bairro das Graças. Embora sua família acredite que ela viveu mais de 100 anos, ela faleceu aos 91 anos em 4 de maio de 1970 às 8 da manhã. A causa da morte, conforme consta no atestado de óbito, foi decorrente de "insuficiência cardiorrenal e esclerose generalizada". Dr. Tomas Moreira de Andrade serviu como médico certificador e ela foi sepultada no Cemitério Central de Itaúna.

Em 28 de setembro de 1871 a princesa Isabel assinou a “Lei do Ventre Livre ou Lei Rio Branco”. Essa Lei considerava livre todos os recém-nascidos de mulheres escravizadas sendo polêmica e controversa já nos primeiros parágrafos da Lei:

§ 1º Os ditos filhos menores ficarão em poder sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais terão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá opção, ou de receber do Estado a indemnização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso, o Governo receberá o menor, e lhe dará destino, em conformidade da presente lei.  A indemnização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se considerarão extintos no fim de 30 anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de 30 dias, a contar daquele em que o menor chegar à idade de oito anos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor (Planalto).

A Lei beneficiava os escravistas que continuariam a explorar a mão de obra humana não remunerada destas “crianças livres” até a idade de 21 anos, permanecendo ainda seus pais cativos. Mesmo em um contexto conturbado, a Lei abolicionista de 1871, deixou um marco importante na tentativa do fim da escravidão tardia no país.

Por meio de busca in loco no Cartório de Registro Civil de Mateus Leme, constatou-se que Maria Adriana (bisa) havia fornecido Assinatura no pedido de sua certidão de casamento, marcada por sua caligrafia legível e firme. A certidão contém detalhes sobre o casamento de Maria Adriana da Silva.

CERTIDÃO DE CASAMENTO

Sob o n°157, fls 106 Vº a 107 do livro nº 1-B 

Ao primeiro dia do mês de Maio de mil oitocentos e noventa e oito, às doze horas do dia, em casa do cidadão José Thomas de Andrade, primeiro Juiz de Paz e Presidente dos casamentos civil, e comigo escrivão interino de paz e dos Casamentos civil, foram recebidos em matrimônio JOÃO CAMILO DA SILVA, de idade vinte annos, lavrador, solteiro, filho legítimo de Camillo Honorato da Silva e Maria Lucas da Silva, já falecida, com MARIA ADRIANNA DA SILVA, de idade de dezenove annos, serviços domésticos, solteira, filha ilegítima de Francisca Claudina da Silva, moradores deste distrito, tudo presente as testemunhas José Diniz Moreira dos Santos, agricultor, e Joaquim Cândido França, carpinteiro, maiores de vinte  e um annos, moradores deste distrito. Em firmeza do que eu Joaquim Silvino de Aguiar, este acto, e vai assignado, e pelo nubente não saber assignar, assina a seu arrogo, Francisco Alves Diniz, e testemunhas com o Juiz o acto matrimonial. Eu   Joaquim Silvino de Aguiar o escrivão, o escrevi (aa). O presidente José Thomás de Andrade (aa). A arrogo do nubente: Francisco Alves Diniz (aa). Maria Adrianna da Silva (aa). Testemunhas: José Diniz Moreira dos Santos (aa) e Joaquim Cândido França (aa). 

O referido é verdade, do que dou fé.

Mateus Leme – MG, primeiro de maio 1898.


Disponível: Tabloide  


REFERÊNCIAS:

Pesquisa e texto: Charles Aquino

FILHO. João Dornas. Efemérides Itaunenses. Ed João Calazans. BH. 1951, p.89

Cartório de Paz e do Registro Civil / Mateus Leme (MG)

História oral: Família Aquino

Planalto. LEI Nº 2.040, DE 28 DE SETEMBRO DE 1871.

Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LIM/LIM2040.htm

Brasão:https://www.soescola.com/wp-content/uploads/2017/11/desenhos-do-brasao-da-republica-colorir-1.png 

IHP -  Instituto Histórico de Pitangui

sexta-feira, 3 de junho de 2016

ARGEMIRO FERREIRA DA SILVA

Construtor itaunense

Argemiro Ferreira da Silva, nasceu em Itaúna em 28 de junho de 1922, filho de Jacinto Ferreira da Silva e Maria Honória Ferreira. Teve cinco irmãos: Jose Ferreira da Silva; Maria Ferreira da Silva Franco; Vandeir Ferreira da Silva; Teodorico Ferreira da Silva (Sô Dorico); João Ferreira da Silva.
Sua vida profissional começou na construção civil, como aprendiz de seu pai, no soerguimento da atual Igreja Matriz, que teve a obra iniciada em 1934. Não demorou muito e se projetou na construção civil de capacidade e de muito profissionalismo devido ao seu trabalho honesto e de muita seriedade. Seus primeiros trabalhos foram a construção das casas da Vila Aurora na principal rua da cidade, o Colégio Sant’Ana e o Grande Hotel Itaúna.
Construiu também o Reservatório D’Água do alto do Cascalho, as casas populares da Reta de Santanense, o Clube União, o Orfanato de São Vicente de Paula e o monumento em homenagem ao Dr. Augusto Gonçalves de Souza, na Praça da Matriz. De suas mãos também saiu o primeiro prédio itaunense da época, onde fora instalada a Farmácia Nogueira, sendo muitos prédios construídos por ele em Itaúna.
Sua competência profissional o levou a ser conhecido fora dos limites itaunenses, sendo requisitado para trabalhar em Belo Horizonte e Brasília. Ergueu dezenas de prédios, ajudando a construir a bela e majestosa Brasília, nossa capital nacional. Pelo seu bom trabalho foi conduzido à política e se elegeu vereador e presidente da Câmara no mandato do prefeito Célio Soares de Oliveira. Argemiro foi um dos primeiros maçons de Itaúna, junto a grandes nomes de nossa cidade, vindo a falecer em 14 de dezembro de 1970.
Argemiro nas suas horas vagas, era excelente músico, tocava instrumentos de sopro, sendo uma pessoa alegre e um verdadeiro brincalhão! 


REFERÊNCIAS:
Texto: Revista Cidade de Itaúna: Personalidades de Itaúna. Ed. Vile, 2003, p.8
José Waldemar .
Organização e pesquisa: Charles Aquino


quinta-feira, 2 de junho de 2016

PARTEIRA BALBINA

NASCIMENTOS EM ITAÚNA MG
Balbina Fortunata da Silva, nasceu em 31 de março de 1902, em Itatiaiuçu, filha de Severiano Calixto da Fonseca e Maria Fortunata da Silva. Casou-se em Itaúna, em 22 de outubro de 1921, aos 19 anos, com José Alexandre de Souza, que era então lavrador e contava apenas 23 anos.
Da união entre eles nasceram quinze filhos, quatro dos quais falecidos ainda muito novos: Maia de Lourdes Viana, a Preta, viúva de Antônio de Araújo, que teve 9 filhos; José Alexandre de Souza, casado com Terezinha, que teve 13 filhos; Paulo Alexandre de Souza, falecido, casado em duas núpcias, pai de 10 filhos; Norma Fonseca de Souza, divorciada, sem filhos, a famosa “Norma da Escola Normal”; Edison da Fonseca, que foi casado com Iracema, pai de 7 filhos; Cleonice da Fonseca, casada com Carlos, mãe de 6 filhos; Oscar da Fonseca, falecido, casado com Lúcia Teixeira, pai de 4 filhos; Marlene Fonseca da Silva, solteira; Arlete Fonseca, viúva de José Nascimento, mãe de 3 filhos; Valdete Fonseca, solteira; e, Jarbas Fonseca de Souza, viúvo de Marlete, pai de 3 filhos.
Balbina era daquelas mulheres notáveis, até difícil de se encontrar hoje em dia! Guerreira, valente, viveu sempre para ajudar as pessoas, ainda que muitas e muitas vezes isso tenha exigido sacrifício dos filhos e até do marido, de quem nunca acobertava falta ou deslizes. Administrava o lar, a conduta do marido e a educação dos filhos com mão de ferro, mas, sem se esquecer nunca do amor e carinho que nutria por todos!
A honestidade e a caridade eram os seus maiores predicados. Mal sabia ler e escreve, mas, aprendeu muito: na escola da vida foi “professora” com “pós-graduação e mestrado”. Enfrentou a vida com a valentia própria dos pioneiros ou desbravadores e nunca se comparou com pessoas, acima ou abaixo do que foi. Nunca se esmoreceu e nunca se ouviu dela uma só palavra de reclamação de enfrentar todos os desafios que a vida lhe colocou no caminho.
Nunca tomou uma atitude que pudesse render discriminação aos seus filhos. Pelo contrário, dizia sempre que, pela origem de todos, raça, cor, nível social ou escolaridade, não deviam aceitar qualquer preconceito ou discriminação. Dizia sempre para eles: somos pobres, mas devemos ser honrados e honestos.
Balbina foi parteira das mais conceituadas e solicitadas em Itaúna, ajudando centenas de cidadãos itaunenses a vir ao mundo. Acolheu em sua casa muitos doentes, pessoas mais pobres. Quantas e quantas pessoas com enfermidades ela socorreu, encaminhando a médico e hospitais ... A porta de sua casa estava sempre aberta, sem qualquer distinção que fosse. Era também arrumadeira de defuntos, o que fazia com todo o respeito à família, resguardando-se naquele momento de dor dos familiares.
Gostava muito da política e participava ativamente dela aqui em Itaúna. Enfrentava abertamente os adversários políticos em favor de seus candidatos preferidos. Porém, costumava dizer, sempre, que tinha adversários políticos, mas nunca políticos inimigos. Não se conformava com injustiças ou mal tratos aos que se mostravam fender seus direitos ou a luta pela vida.
A criação de seus filhos foi um capítulo à parte em sua vida. Entendendo que o marido não tinha como criar sozinho uma prole tão grande, foi à luta para ajudá-lo. Viajava pelas redondezas comprando ovos e frangos que ia revender em Belo Horizonte, onde conquistou um grande círculo de amizades. Era a “Dona Balbina”, que podia entrar em qualquer mansão belorizontina, sendo recebida por pessoas de alto nível. Nessas casas, era convidada a almoçar e assentar-se à mesa com os donos e seus filhos, sendo tratada com carinho e respeito. Nessas viagens a Belo Horizonte há de se destacar um fato peculiar: Balbina detestava sapatos ou chinelos e, por muitas vezes, foi e voltou a Belo Horizonte descalça.
Na capital mineira tornou-se amiga de grandes chefes políticos, como Israel Pinheiro e Tancredo Neves, dos quais frequentava a casa toda vez que podia. Para comprar, tinha crédito em toda a cidade, pois sua honestidade a precedia: não havia uma casa de comercio que não lhe fiasse qualquer mercadoria, pois a certeza do recebimento era total. A honestidade financeira e de princípios era sempre a maior lição que ela achava que tinha de passar para os filhos. Estes, continuaram a honrar o predicado maior da mãe, tornando-se todos cidadãos íntegros, que muitos contribuíram, cada um a seu modo, para o desenvolvimento e o crescimento de nossa Itaúna.
Destacou-se como uma pessoa que nunca levava desaforos para casa -  era brigadeira mesmo! -  masque, inversamente, nunca deixou um inimigo para trás. Hoje, mesmo depois de tantos anos de seu falecimento, é lembrada com carinho por muitas pessoas itaunenses. Deu grande exemplo de vida e deixou para os filhos um nome íntegro, orgulho de toda a prole.
Foi valente até mesmo na morte, nunca se deixando abater pela doença que a consumiu pouco a pouco, por mais de uma no. Falecida em 20 de dezembro   de 1975, aos 73 anos de idade, seu sepultamento foi dos mais concorridos na cidade. Os filhos se assustavam com a quantidade de gente que se aproximava e dizia ter recebido uma ajuda ou favor da Balbina, pessoas que eles mesmo desconheciam como favorecidos por ela.
Nasceu pobre e dizia ter chegado ao fim de sua vida rica, pois havia conquistado um teto para deixar para que os filhos morassem, muitas amizades e se tornara uma vencedora frente aos obstáculos cotidianos.
Só e somente a morte foi capaz de abatê-la na sua luta pela vida!
Parecendo que estava adivinhando a sua hora, ela publicou na antiga FOLHA DO OESTE, um agradecimento:
Obrigado Senhor! Pelos 73 anos que me deste de saúde, sem nenhuma dor de cabeça, 54 anos de casada, criando meus 11 filhos, dando morada para todos, me destes tudo que desejei. Eu pedi quando me desse uma enfermidade me desse também paciência e até isto eu recebi. Quando eu tiver de morrer, dê-me uma doença que eu não sinta muita dor, pois não irei lutar contra o Senhor!
Balbina do Severiano
Itaúna, 5 de setembro de 1975



Referência:
Revista de Itaúna: Mulheres Notáveis. Ano IV– Ed.05,2007, p.5.
Pesquisa e Organização: Charles Aquino
Imagem: Meramente ilustrativa, inspirada em fotografias do acervo do professor Guaracy de Castro Nogueira (In memoriam) e   Juarez Nogueira Franco (In memoriam).


FRANCISCO ALVES PAULINO


CUBÚ
Francisco Alves Paulino
(1911-2013)

Cubú foi um dos melhores “beques” (zagueiro) que já passaram pelo time de futebol de amador itaunense, o Sport Club Itaúna, décadas de 30/40. 

Francisco Alves Paulino, o Cubú, disse que usava uma touca para se proteger das “cabeçadas” que dava na bola, por ser de couro e costurada, a bola poderia machucar se a pessoa não soubesse cabecear. Nos dias de chuva, a “pelota” ainda mais pesada, misturando-se com a lama do campo. Mas sempre foi um momento mágico e feliz da minha vida.

Fui muito feliz por ter participado destes momentos bons do futebol itaunense. Tudo está gravado em minhas lembranças até hoje, e olha que estou com mais de 100 anos de idade. Minha função era de “beque”. Defender a nossa zaga do adversário e tínhamos o pensamento: a bola poderia até passar, mas o atacante não!  Risos!


 SPORT CLUB ITAÚNA: DÉCADA 30

CAMPO DA VÁRZEA (HOJE RODOVIÁRIA)

Ao centro de touca o zagueiro Cubú






REFERÊNCIAS:
Entrevista com Francisco Alves Paulino em sua residência na cidade de Itaúna, no dia 22/05/2012 (Francisco estava com 100 anos de vida e com muita alegria.  Veio a falecer no ano de 2013 e sepultado no cemitério central da cidade de Itaúna).
Acervo: Hely Jaó e Professor Marco Elísio Chaves Coutinho
Organização e Fotografia: Charles Aquino
Colaborador: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho

COSME CAETANO DA SILVA

MEIO SÉCULO DE VERSATILIDADE NO RÁDIO

"Considerado um artista nato, com atuação em diversos segmentos da arte dedicou mais de 50 anos ao rádio"

Extremamente versátil, inteligente, criativo e com uma veia artística muito forte, o jornalista, advogado, radialista, dramaturgo instrumentalista e compositor. Cosme Caetano da Silva deixou um considerável legado, sobretudo no rádio, onde atuou mais de 50 anos. Ele iniciou sua carreira, neste veículo de comunicação, como músico da Rádio Clube de Itaúna tão logo foi inaugurada em 1950, passando em seguida por diversas funções na emissora e, nos últimos anos, apresentou o programa de variedades "Shôsme Silva Show" até a sua morte em 21 de agosto de 2003.

Cosme Silva nasceu em 24 de fevereiro de 1928 em São Gonçalo do Pará MG e aos 75 anos era um exemplo de entusiasmo e dedicação ao rádio. E tinha muita história para contar. Aliás, contar histórias era com ele mesmo, o que fazia com competência e propriedade ao escrever inúmeras peças teatrais, a exemplo de sua obra prima " E Ela não Voltou”, encenada pela primeira vez em Itaúna em 1964.

Essas habilidades de escritor também foram empregadas na criação de radionovelas, as quais, além de escrever, apresentava, narrando, interpretando e criando todos os sons necessários para compor a trama, a partir do seu aprendizado na Rádio Nacional do Rio, onde estagiou.

A Rádio Clube de Itaúna foi a primeira emissora do interior a produzir novelas radiofônicas em capítulos, fazendo grande sucesso em toda a região Centro Oeste de Minas.
Consta do anedotário do rádio que durante a transmissão - era tudo ao vivo _ de um capítulo de suas novelas, um dos personagens morreria vítima de um tiro, mas na hora prevista, a espoleta falou. O ator, contudo, não se atrapalhou e teve a iniciativa de começar a gritar:"Você não merece um tiro. Você vai morrer é na faca".

MÚSICA - Um instrumentista por excelência tocava piano, violão, cavaquinho, gaita, acordeom e escaleta, destacando-se, ainda, como compositor. Cosme Silva chegou a liderar dois conjuntos musicais: "Ases do Samba e "Garotas Tropicais" , mas abandonou sua atuação musical em decorrência das atividades que desempenhava no rádio, passando a acumular somente a função de promotor de shows, levando renomados artistas nacionais e internacionais à Itaúna, como : Nelson Gonçalves, Gauby Peixoto , Oscarito e Baden Powel .

 Ele também produziu inúmeros programas de auditório, revistas musicais, repostagens e transmissões de jornadas esportivas, sendo pioneiro nas transmissões do interior - a primeira foi ralizadade Uberaba pra Itaúna e foram gastas oito horas na construção da linha telefônica entre o estádio nacional e a central telefônica local.

Sem jamais abandonar a Rádio Clube de Itaúna, Cosme Silva participou da fundação da Rádio Santa Cruz de Pará de Minas - atualmente pertencente à Diocese de Divinópolis - e foi um dos sócio -fundadores da Rádio Tropical de Lagoa da Prata. Seu nome também está ligado à Associação Mineira de Rádio e Televisão — AMIRT, já que ele assinou a ata de criação da entidade, como representante da Rádio Clube de Itaúna.

 Suas múltiplas atividades não o impediram, contudo, de ter uma expressiva atuação social - isto muito antes do conceito de responsabilidade social e de voluntariado estar na moda.

Ele participou de conselhos consultivos, como membro atuante, de entidades diversas, desde hospitalares até clubes recreativos de operários, passando por unidades escolares, irmãos vicentinos e clubes de serviços como Rotary e Lions. Chegou a ser diretor do Orfanato de Itaúna e, ainda, arrumou um tempinho pra se enveredar pela política, sendo chefe de gabinete do prefeito Milton Penido e , posteriormente, vereador por dois mandatos  : 1970 a 1972 e de 1972 a 1976.

HOMENAGENS -  Pelos inúmeros projetos que desenvolveu, seja na área artística ou nos meios radiofônicos e empresariais, Cosme foi contemplado com medalhas, troféus e títulos. Dentre eles, o de Cidadão Honorário de Itaúna, em 1974; medalha de Ouro, concedida pela Associação dos Cronistas radiofônicos de Minas Gerais, em 1963; Troféu Força Nova, pelo jornal Diário de Minas, em 1969; Troféu Gutemberg, recebido em Araxá, em 1974; Operário Padrão de Itaúna, em 1978; e Troféu Bandeirantes, concedido pelo Programa Jota Silvestre, da Tv Bandeirantes de São Paulo, em 1983.

Também foi agraciado com diversos troféus de coritos e poesias.  Sua produção deu se, na maioria das vezes, como autodidata, já que só aos 40 anos ele pôde concluir o Madureza Supletivo, atualmente -e em seguida passar no vestibular para o Curso de Direito da Universidade de Itaúna em nono lugar, data a sua inteligência acima da média.

Casado com Dª Noêmia Maria Caetano, com quem teve dois filhos: Giovanni Vinícius e Cristine Guadalupe, Cosme Silva foi e continua sendo um exemplo para todos aqueles que conviveram com ele, aqueles que puderam acompanhar a sua trajetória ou que possam vir a tomar conhecimento da sua história.



Referência:
Texto: Guaracy de Castro Nogueira
Apoio: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC
Organização e pesquisa: Charles Aquino
Acervo: Prof. Giovanni Vinícios