Maria Concebida Viana
A voz negra que ecoou na alma de Itaúna
Em uma Itaúna marcada pelos bailes populares, pelas serestas sob a luz amarelada dos postes e pelos carnavais que transformavam a Praça da Matriz em um verdadeiro palco popular, uma voz se impunha acima da multidão.
Não era apenas potência vocal. Era presença. Era identidade. Era memória coletiva. Essa voz pertencia a Maria Concebida Viana, eternizada na cidade simplesmente como Dunga.
Cantora negra, Dunga construiu seu nome pela força do talento. Sua voz atravessou décadas, atravessou gerações e permaneceu viva na lembrança afetiva de Itaúna mesmo após sua morte, em 14 de outubro de 2005.
Sua trajetória foi profundamente itaunense. Sua arte nasceu das ruas, dos encontros musicais, das escolas de samba, dos grupos de baile e das serestas que moldaram a cultura popular da cidade nas décadas de 1960, 1970 e 1980.
Durante anos, integrou conjuntos musicais e apresentações ao lado de nomes importantes da música local, como o acordeonista Glício Mendes. Sua presença artística se expandiu para além de Itaúna através do projeto Minas ao Luar, promovido pela Rede Globo Minas, pelo qual percorreu diversas cidades mineiras durante parte da década de 1980, levando consigo a musicalidade e a identidade cultural itaunense.
Mas talvez tenha sido no carnaval que Dunga tenha alcançado uma dimensão quase mítica. Em uma época em que os “puxadores” de samba eram tradicionalmente homens, ela assumiu a condução dos sambas-enredo da Escola de Samba Clube dos Zulus. Não apenas ocupou aquele espaço: dominou-o. Sua voz passou a incendiar a antiga avenida da Praça da Matriz, transformando desfile em espetáculo.
Fernando Lúcio de Lima recorda exatamente essa força: “A Dunga não podia faltar. Voz poderosa que incendiava a Praça da Matriz nos bons tempos do carnaval itaunense. Ouço a voz da Dunga nos desfiles memoráveis do Zulu. Era uma rainha que cantava.”
A expressão é precisa: “uma rainha que cantava”. Porque Dunga não era apenas intérprete; ela ocupava o espaço com autoridade artística. Sua presença carregava dignidade, imponência e carisma.
Sua trajetória, porém, não se limitava ao samba e à música popular. O texto sobre as organistas da Matriz de Sant’Ana registra sua participação ao lado da organista Anna Alves Vieira dos Reis, entoando os versos graves e solenes do Agnus Dei da Missa in honorem Sancti Michaelis Archangelis.
Esse detalhe é extremamente significativo historicamente: revela uma artista capaz de transitar entre o universo popular do carnaval e o repertório sacro erudito da liturgia católica.
Essa versatilidade desmonta qualquer tentativa simplista de enquadrar Dunga apenas como cantora carnavalesca. Ela era intérprete de múltiplos repertórios, dona de uma voz lírica e potente, capaz de ocupar tanto a avenida quanto a igreja, tanto a seresta quanto o canto religioso.
Sandra Crespo Lima resumiu essa lembrança em poucas palavras: “Conheci a Dunga. Voz linda. Ela cantou no Zulu.”
Já Agostinho Rocha recorda não apenas a cantora, mas a presença humana: “Já tive o prazer de contracenar com a Dunga num curto diálogo teatral, no Sindicato dos Metalúrgicos! Tudo é saudade para nós, corações vividos...!”
O comentário revela outro aspecto importante: Dunga participava ativamente da vida cultural da cidade. Não era uma artista isolada, mas alguém integrada aos espaços coletivos de sociabilidade popular.
Pepe Chaves, por sua vez, destacou a dimensão afetiva deixada por ela: “Sua voz potente e lírica será ainda lembrada por muitos itaunenses que tiveram o prazer de ouvi-la,” Dunga possuía uma voz que remetia às grandes cantoras negras da música gospel norte-americana.
E talvez seja justamente aí que reside a permanência de Dunga. Sua memória sobrevive porque ela pertence à experiência emocional da cidade. Dunga não foi apenas “uma cantora de Itaúna”. Ela se tornou parte da paisagem sonora da memória itaunense.
Sua última apresentação pública possui força quase simbólica. Poucos dias antes de falecer, voltou ao palco justamente em uma edição do Minas ao Luar, realizada na Praça Dr. Augusto Gonçalves. Era como se encerrasse sua trajetória diante da própria cidade que ajudou a cantar durante décadas.
Quando se fala nos antigos carnavais de Itaúna, nas serestas, nos bailes populares, na Praça da Matriz tomada pelo samba e pela música, sua voz continua presente, não apenas como lembrança, mas como patrimônio afetivo e cultural de uma cidade inteira.
As imagens e o vídeo apresentados nesta publicação não correspondem, em sua totalidade, a registros fotográficos ou audiovisuais originais de Maria Concebida Viana, a Dunga.
Parte do material consiste em recriações visuais interpretativas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA), elaboradas a partir de fotografias históricas, relatos memorialísticos, referências documentais e descrições relacionadas à cantora itaunense.
As recriações buscaram preservar, de forma respeitosa, características físicas, estéticas e contextuais associadas à artista, especialmente sua atuação nos meios musicais e culturais de Itaúna ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980.
O objetivo deste material é contribuir para a preservação da memória cultural itaunense, valorizando a trajetória artística de Dunga e ampliando o acesso público à sua história por meio de recursos visuais contemporâneos inspirados em fontes históricas disponíveis.
Todo o conteúdo foi desenvolvido pelo projeto Itaúna Décadas com finalidade exclusivamente cultural, educativa, histórica e memorialística.
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Referências
CHAVES, Pepe. Itaúna perde a cantora Dunga. Via Fanzine, [s.l.], 2005. Disponível em: Via Fanzine Galeria. Acesso em: 23 maio 2026.
MOREIRA JÚNIOR, Rodrigo Botelho. As organistas da Matriz de Sant’Ana. Itaúna Décadas, Itaúna, 30 ago. 2016. Disponível em: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna. Acesso em: 23 maio 2026.
Depoimentos em rede social
CHAVES, Pepe. Depoimento sobre Maria Concebida Viana (Dunga). Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
LIMA, Fernando Lúcio de. Depoimento sobre os carnavais itaunenses e a participação de Dunga nos desfiles do Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
ROCHA, Agostinho. Depoimento sobre participação teatral ao lado de Dunga no Sindicato dos Metalúrgicos de Itaúna. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
LIMA, Sandra Crespo. Depoimento sobre a atuação musical de Dunga no Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
XADREZ, Cepex. Comentário em memória da cantora Dunga. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
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