SEGUNDO EPISÓDIO
AS GUARDAS
O segundo episódio
da série documental A História do Reinado em Itaúna,
produzido pela Prefeitura Municipal de Itaúna e intitulado "As
Guardas", volta-se para um dos elementos centrais da tradição
reinadeira: as guardas.
A partir dos
depoimentos de capitães, rainhas, presidentes e integrantes das corporações, o
episódio apresenta a diversidade dos grupos existentes no município,
evidenciando a importância da transmissão dos saberes entre gerações e o
compromisso coletivo com a preservação de uma tradição profundamente enraizada
na religiosidade popular afro-brasileira.
Logo no início, o
documentário destaca a riqueza e a pluralidade do Reinado itaunense. Segundo os
entrevistados, a cidade conta atualmente com onze guardas ativas, distribuídas
entre diferentes vertentes tradicionais, como os Moçambiques, Congos, Candombe
e Vilão.
Cada uma dessas
corporações possui características próprias em seus cantos, vestimentas,
instrumentos e formas de organização. Apesar dessas particularidades, os
participantes ressaltam que todas compartilham o mesmo propósito devocional,
voltado à homenagem de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e
outros santos associados ao universo do Congado e do Reinado.
Ao longo do
episódio, torna-se evidente, por meio dos relatos apresentados, que a
continuidade das guardas está fortemente associada aos vínculos familiares. A
transmissão dos conhecimentos, das responsabilidades e da fé ocorre, em muitos
casos, dentro do próprio ambiente doméstico, onde crianças crescem acompanhando
ensaios, procissões, festas e cerimônias religiosas.
Dessa forma, o
documentário retrata o Reinado não apenas como uma manifestação cultural, mas
também como um patrimônio familiar transmitido de geração em geração.
Essa dimensão
sucessória é exemplificada pela história do Moçambique São Benedito. Em seu
depoimento, a atual presidente e capitã relata que a guarda foi fundada por seu
pai, em 1993, atendendo a um pedido feito por sua mãe, Rainha Conga, pouco
antes de falecer. Segundo sua narrativa, a tradição percorreu diferentes
gerações da família até chegar à sua responsabilidade atual.
O relato evidencia
como a continuidade da guarda é percebida pelos próprios participantes como um
compromisso assumido com a memória dos antepassados. De maneira semelhante,
outra integrante relata ter assumido responsabilidades de liderança após o
falecimento do marido, demonstrando como a preservação das guardas
frequentemente depende do engajamento dos familiares que dão continuidade ao
trabalho iniciado pelas gerações anteriores.
O documentário também apresenta a trajetória da Guarda de Moçambique Santa Cruz. Conforme relatado pela atual capitã, filha do fundador e capitão-presidente da guarda, a continuidade do grupo foi assegurada após o adoecimento de seu pai, que manifestou o desejo de que assumissem a condução da corporação.
Mesmo após o
falecimento da irmã, o capitão afirma ter dado sequência à missão recebida da
família, contando atualmente com o apoio de seus filhos e demais integrantes da
guarda. Seu depoimento evidencia o compromisso assumido pelas novas gerações
com a preservação de uma tradição construída ao longo de décadas.
Outro testemunho de destaque é o de uma integrante da Guarda de Candombe, que apresenta uma característica singular no contexto do Reinado itaunense por ser composta exclusivamente por mulheres. Segundo os relatos apresentados no documentário, o grupo preserva o legado associado à figura de “Vovó Sãozinha”, lembrada com carinho pelos familiares e participantes da manifestação.
Nos depoimentos, entrevistados
afirmam que o Candombe representa sua própria vida, expressando um profundo
sentimento de pertencimento que ultrapassa a simples participação em uma
festividade religiosa. As “vozes herdeiras” evidenciam o esforço contínuo das
integrantes em manter viva uma tradição transmitida entre gerações, reafirmando
os vínculos de memória, fé e ancestralidade que caracterizam essa expressão
cultural.
Além de destacar a
sucessão familiar, o episódio chama atenção para a antiguidade atribuída a
algumas guardas existentes em Itaúna. Entre elas, é mencionada uma pequena
guarda de Moçambique que preserva a tradição de utilizar vestimentas
inteiramente brancas e que, segundo os entrevistados, mantém uma bandeira com
quase cem anos de existência. O objeto é apresentado como símbolo da memória e
da continuidade histórica do grupo.
Ainda mais
expressiva é a trajetória do Moçambique Nossa Senhora do Rosário. Segundo o
relato de seu primeiro capitão, seria uma guarda que “existe há mais de
duzentos e cinquenta anos na cidade de Itaúna”. Na memória preservada por seus
integrantes, suas origens remontariam aos africanos e afrodescendentes
escravizados que viviam na região.
Conforme
apresentado no documentário, essa corporação ocupa lugar central nas narrativas
de origem do Reinado em Itaúna, estabelecendo uma conexão simbólica entre as
festividades atuais e as experiências vividas pela população negra durante o
período colonial.
A importância da
ancestralidade também aparece no depoimento do capitão João da Guarda de São
Miguel Arcanjo. Segundo seu relato, a liderança da corporação atravessou
sucessivas gerações de sua família, passando do bisavô para o avô, depois para
o pai e, finalmente, para ele. Essa continuidade é apresentada como uma forma
de preservar uma herança espiritual e cultural transmitida ao longo do tempo.
O episódio
apresenta ainda a Guarda do Vilão, liderada pelo capitão Celso. Em seus
depoimentos, os integrantes destacam o orgulho de participar das celebrações e
ressaltam o forte sentimento de fraternidade existente entre seus membros. A
guarda é retratada como uma grande família unida pela fé, pela devoção e pelo
compromisso de honrar os ensinamentos recebidos dos mais velhos.
A temática da resistência cultural ganha destaque nos relatos das guardas mais recentes. O Moçambique Santa Efigênia, por exemplo, é apresentado como uma guarda surgida há aproximadamente trinta e cinco anos a partir do desmembramento de uma corporação mais antiga, mantendo a missão de louvar Nossa Senhora do Rosário e fortalecer os laços comunitários.
De forma semelhante, a Guarda de Nossa
Senhora do Divino Espírito Santo é descrita por seus integrantes como resultado
de uma linha sucessória que envolve bisavôs, avôs, pais, filhos e netos em um
contínuo processo de transmissão da tradição. O mesmo acontece com a Guarda de
Congo Santa Edwiges, fundada em 1993.
Também merece
destaque a história da Guarda de Congo Virgem do Rosário Irmãos Salomé. Em seu
depoimento, o capitão-general relata que o grupo foi fundado juntamente com
seus irmãos. O congadeiro afirma assumir a responsabilidade de orientar as
novas gerações e assegurar a continuidade da trajetória construída nas últimas
décadas.
Ao longo de todo o episódio, emerge uma percepção comum entre os entrevistados: a de que o Reinado e o Congado constituem manifestações marcadas pela resistência e pela capacidade de renovação.
Essa ideia é sintetizada na fala de uma das
participantes, Dilermando, o Rei Congo, que compara o movimento congadeiro à
grama, afirmando que “quanto mais se poda, mais ela cresce”. A metáfora
expressa a força simbólica de uma tradição que, segundo seus praticantes,
continua encontrando meios de se fortalecer e se reinventar diante das transformações
do tempo.
O episódio
encerra-se com cantos tradicionais reafirmando, na perspectiva de seus
participantes, que as guardas constituem o coração do Reinado em Itaúna. Mais
do que grupos festivos ou cerimoniais, elas são apresentadas como espaços de
memória, ancestralidade, fé e pertencimento, responsáveis por manter viva uma
das mais importantes expressões da cultura afro-brasileira no município.
© AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE
Projeto independente de memória, história e
patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Nota sobre a imagem de
capa
A imagem utilizada na capa deste
documentário foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência
Artificial (IA), tendo como referência fotografias, registros visuais,
elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e informações históricas relacionados
ao Reinado de Itaúna. Trata-se de uma representação artística inspirada no
patrimônio cultural e religioso da manifestação, não correspondendo a um
registro fotográfico real de um evento específico.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
