TERCEIRO EPISÓDIO
A FÉ
O terceiro episódio da série documental A História do Reinado em Itaúna, intitulado "A Fé", aprofunda-se na dimensão espiritual que sustenta e
dá sentido à manifestação reinadeira.
Diferentemente dos episódios anteriores, que abordam as
narrativas de origem do Reinado e a organização das guardas a partir dos
relatos de seus participantes, este capítulo concentra-se na religiosidade que
permeia as práticas, os rituais e as experiências compartilhadas pelos
integrantes da manifestação.
A partir dos depoimentos apresentados, a fé surge como o
principal elemento de coesão entre os participantes e como uma das forças
responsáveis pela continuidade da tradição ao longo das gerações.
O episódio inicia-se com o depoimento do Capitão General
Darci Salomé, uma das mais respeitadas lideranças do Reinado itaunense. Em sua
fala, ele expressa um profundo sentimento de realização ao contemplar a
trajetória construída ao longo dos anos.
Ao observar a dimensão alcançada pela manifestação na
atualidade, Darci demonstra satisfação por ter contribuído para o
fortalecimento da tradição, afirmando sentir-se em paz por ter dedicado parte
significativa de sua vida ao serviço da religião e da comunidade.
Seu testemunho evidencia como a participação no Reinado é
compreendida por muitos de seus integrantes não apenas como uma atividade
festiva, mas como uma missão de vida marcada pelo compromisso com a fé e com a
preservação dos ensinamentos recebidos dos antepassados.
Na sequência, o documentário retoma uma das narrativas mais
conhecidas do universo congadeiro: a lenda do aparecimento de Nossa Senhora do
Rosário. O relato é apresentado pelo Capitão General Vicente, que descreve uma
história transmitida oralmente por sucessivas gerações de reinadeiros.
Segundo a tradição narrada pelos entrevistados, os negros
cativos aguardavam pela proteção de Nossa Senhora do Rosário em um contexto
marcado pelo sofrimento e pelas dificuldades impostas pela escravidão.
A imagem da santa encontrava-se nas águas e somente teria
respondido ao chamado daqueles que se aproximaram dela por meio da fé, da
música e da devoção.
Conforme a narrativa apresentada no documentário, diversas
tentativas teriam sido realizadas para retirar a imagem das águas, mas sem
sucesso. Foi então que as guardas passaram a desempenhar papel central nessa
tradição oral.
O Congo posicionou-se à frente, abrindo os caminhos por meio dos cantos e instrumentos, enquanto o Moçambique seguia logo atrás, reforçando o cortejo devocional. Segundo a memória preservada pelos participantes, foi a união entre essas guardas, expressa pela fé e pela musicalidade ritual, que permitiu conduzir a imagem de Nossa Senhora do Rosário para fora das águas e levá-la até a igreja.
A narrativa ocupa lugar de destaque na tradição reinadeira
e reforça o papel simbólico atribuído às guardas dentro da devoção à santa.
Mais do que uma simples lenda, esse relato ocupa posição
central na memória coletiva dos grupos congadeiros. Conforme apresentado pelos
entrevistados, ele simboliza a união entre as guardas, a força da devoção
popular e a crença de que a fé é capaz de superar adversidades.
Ao mesmo tempo, a narrativa conecta a devoção a Nossa Senhora
do Rosário a outras figuras veneradas no universo do Reinado, como São Benedito
e Santa Efigênia, ampliando o conjunto de referências religiosas que compõem a
identidade espiritual da manifestação.
Ao longo do episódio, os depoimentos são intercalados por
imagens que revelam momentos de intensa espiritualidade. Integrantes das
guardas aparecem reunidos em oração, entoando cantos tradicionais dedicados à
Nossa Senhora do Rosário e reafirmando a dimensão sagrada da celebração. As
cenas também registram a recitação coletiva do Pai-Nosso e da Ave-Maria,
evidenciando a centralidade da prática religiosa na experiência compartilhada
pelos participantes.
Também ganham destaque os rituais de coroação e os gestos de
respeito mútuo entre reis, rainhas, capitães e demais integrantes das guardas.
Conforme sugerem os depoimentos e imagens apresentados pelo documentário, essas
práticas ultrapassam o aspecto meramente cerimonial e assumem profundo
significado religioso.
Elas expressam valores como humildade, reverência,
solidariedade e compromisso comunitário, elementos frequentemente associados
pelos participantes à continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.
A partir dos relatos reunidos pelo documentário, observa-se
que a fé ocupa uma posição central na experiência do Reinado em Itaúna. Ela não
se manifesta apenas durante os festejos anuais, mas aparece associada ao
cotidiano de muitos participantes, influenciando suas relações familiares,
comunitárias e espirituais.
Na perspectiva apresentada pelos entrevistados, a devoção
constitui uma das principais forças responsáveis por manter viva a tradição,
garantindo a transmissão dos ensinamentos e dos valores herdados das gerações
anteriores.
Ao final, o episódio A Fé
apresenta o Reinado como uma manifestação na qual religião, memória e cultura
se encontram de forma inseparável. Os cantos, as orações, os cortejos e as
narrativas compartilhadas pelos capitães demonstram como os próprios
participantes compreendem a importância da espiritualidade para a continuidade
da tradição.
Nesse sentido, o episódio reafirma, na perspectiva de seus
integrantes, que a fé constitui o alicerce sobre o qual se sustenta toda a
estrutura simbólica, cultural e comunitária do Reinado em Itaúna.
© AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Nota sobre a imagem de capa
A imagem utilizada na capa deste documentário foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), tendo como referência fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e informações históricas relacionados ao Reinado de Itaúna. Trata-se de uma representação artística inspirada no patrimônio cultural e religioso da manifestação, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
