QUARTO EPISÓDIO
A FESTA
O quarto e último episódio da série documental A História do Reinado em Itaúna, intitulado “A Festa”, apresenta o momento culminante das
celebrações reinadeiras. Após abordar, nos episódios anteriores, as narrativas
de origem preservadas pela tradição oral, a organização das guardas e a
centralidade da fé na experiência dos participantes, o documentário volta-se
para o instante em que esses elementos se tornam visíveis na esfera pública.
Por meio dos depoimentos e das imagens registradas durante os
festejos, o episódio apresenta a festa como o espaço onde memória,
ancestralidade, devoção e identidade coletiva se encontram e se manifestam
diante da comunidade.
Logo nos primeiros relatos, destaca-se a emoção daqueles que participam ativamente da celebração. Um jovem integrante expressa sua satisfação por fazer parte do Reinado não apenas como espectador, mas como participante de uma tradição que considera fundamental para a identidade cultural de Itaúna.
Seu depoimento evidencia a importância da renovação
geracional para a continuidade da manifestação e reforça o desejo de que o
Reinado seja cada vez mais reconhecido e valorizado pela população local.
A alegria presente nos festejos também é ressaltada por outro
participante, que descreve a celebração como um momento de intensa emoção e
devoção. Segundo sua interpretação, os cantos, as danças, os encontros e as
brincadeiras que compõem a festa não possuem apenas caráter recreativo.
Para os participantes, todas essas expressões estão
vinculadas à homenagem prestada a Nossa Senhora do Rosário e à reafirmação da
fé que sustenta a tradição. Em sua reflexão, a dedicação dos integrantes é
comparada ao ato de plantar uma semente cujos frutos serão colhidos pelas
futuras gerações.
O episódio também evidencia a profunda relação entre devoção
e ancestralidade presente nas memórias dos entrevistados. Uma das participantes,
Neusa relata acompanhar anualmente os cortejos dedicados à Nossa Senhora do
Rosário, Santa Efigênia e São Benedito, recordando que seu envolvimento com a
festa teve início ainda na infância, quando era conduzida pelos pais às
celebrações.
Seu testemunho evidencia como o vínculo com o Reinado é
frequentemente construído desde os primeiros anos de vida e perpetuado por meio
das relações familiares. Neusa destaca que essa tradição constitui uma forma de
reverenciar sua ancestralidade e de preservar os legados culturais de matriz
africana que permeiam sua identidade e sua trajetória de fé.
Essa dimensão familiar e ancestral é ampliada por depoimentos
que associam diretamente o Reinado à valorização da herança africana e da
memória dos antepassados. Na perspectiva dos participantes, os festejos
constituem uma oportunidade de homenagear aqueles que vieram antes, preservando
práticas, saberes e valores transmitidos ao longo das gerações.
Dessa forma, a celebração é apresentada não apenas como uma
manifestação religiosa, mas também como um importante espaço de reafirmação
identitária e de fortalecimento dos vínculos comunitários.
As lembranças de infância e as experiências de fé reaparecem
no relato de outra devota, que recorda as longas caminhadas realizadas ao lado
da família para participar das festividades.
Segundo suas memórias, o percurso era realizado a pé desde a
região da Pedra da Piedade até o local da celebração, transformando a
participação na festa em uma verdadeira demonstração de devoção. Em seu
depoimento, a entrevistada associa essas experiências às graças que acredita
ter recebido ao longo da vida, afirmando retornar anualmente para agradecer a
Nossa Senhora do Rosário.
Ao longo do episódio, os depoimentos são acompanhados por
cantos tradicionais que ocupam lugar de destaque na cultura reinadeira. Mais do
que elementos festivos, essas expressões musicais aparecem como importantes
instrumentos de transmissão da memória coletiva. Por meio da oralidade,
preservam-se narrativas, ensinamentos e referências simbólicas que contribuem
para fortalecer a identidade dos grupos participantes.
Os versos entoados durante as celebrações evocam mensagens de
esperança, perseverança, proteção divina e devoção a Nossa Senhora do Rosário.
Alguns cantos também remetem às narrativas tradicionais sobre o encontro da
santa com os negros devotos junto às águas, retomando elementos já apresentados
em episódios anteriores.
Dessa forma, a musicalidade atua como elo entre passado e
presente, contribuindo para a preservação do patrimônio cultural transmitido
entre gerações.
Ao encerrar a série documental, o episódio A Festa reafirma, na perspectiva de seus
participantes, que o Reinado de Itaúna constitui muito mais do que uma
celebração anual. Os depoimentos reunidos ao longo da produção demonstram como
seus integrantes compreendem a manifestação como um espaço de memória,
ancestralidade, fé e pertencimento coletivo.
As guardas, os cortejos, os cantos, os rituais e as
narrativas apresentados ao longo dos quatro episódios revelam uma tradição
continuamente atualizada pelas gerações que assumem a responsabilidade de
preservá-la.
Assim, o documentário conclui seu percurso reafirmando não
apenas a importância cultural do Reinado, mas também os significados atribuídos
a ele por seus próprios participantes.
Sob essa perspectiva, a festa representa a materialização
pública de tudo aquilo que foi apresentado ao longo da série: as narrativas de
origem, a força das guardas, a centralidade da fé e a permanência da
ancestralidade afro-brasileira na construção da identidade coletiva dos
reinadeiros de Itaúna.
© AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).
Nota sobre a imagem de capa
A imagem utilizada na capa deste documentário foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), tendo como referência fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e informações históricas relacionados ao Reinado de Itaúna. Trata-se de uma representação artística inspirada no patrimônio cultural e religioso da manifestação, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
