sexta-feira, 31 de maio de 2024

IRMÃ BENIGNA: UMA LÍDER NEGRA

Irmã Benigna: Devoção e Liderança de uma mulher negra

Negra e pobre enfrentou a rejeição da congregação inicial à qual procurou ingressar. Porém, uma virada ocorreu quando Dom Carlos de Carmelo Mota, nomeado Bispo Auxiliar em Diamantina, estabeleceu um vínculo com sua família. Reconhecendo a sua vocação, ligou-a às Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade, onde encontrou o seu lugar e se dedicou a uma vida de santidade. Em 1935, Maria da Conceição Santos, devota de Nossa Senhora de Lourdes, tornou-se membro da Congregação. Em 1936, abraçou formalmente a obediência ao fazer seus votos religiosos iniciais. A partir desse momento, adquiriu o nome de Irmã Benigna Víctima de Jesus, marcando o início de sua jornada missionária ao se dedicar à prestação de serviços espirituais em áreas designadas pela Congregação.

Em 1941, participando de cerimônia em Itaúna, fez os votos perpétuos. Durante este significativo evento, a Superiora da Congregação e outras religiosas, estiveram presentes para testemunhar o seu compromisso. A partir de uma investigação realizada neste ano, com considerável abrangência, é altamente provável que tenha concluído com êxito um curso de três anos na "Escola de Enfermagem do Estado de São Paulo", obtendo o prestigiado título de "Enfermeiro Prático Licenciado". A conceituada instituição era conhecida pela adesão aos padrões de ensino europeus e norte-americanos, e havia uma lista de formandos daquele ano que incluía seu nome.

Em 1943, foi nomeada Irmã Superiora, onde atendeu diligentemente às necessidades de suas irmãs. Irmã Benigna, na qualidade de diretora da Santa Casa em Itaúna, criou uma maternidade dedicada a prestar assistência às mães desfavorecidas. Ela não apenas ofereceu apoio durante o parto, mas também transmitiu conhecimentos valiosos sobre a educação dos filhos, abrangendo aspectos como saúde, higiene, nutrição e cuidados emocionais. Em 1946, participou ativamente na cerimônia de lançamento da pedra fundamental do recém-construído edifício hospitalar em Itaúna, atualmente reconhecido como Hospital Manoel Gonçalves, abençoado pelo padre Waldemar Antônio de Pádua Teixeira e pelo padre José Ferreira Netto.

Em 1947, Irmã Benigna concluiu seu mandato de doze anos como superiora do hospital, deixando uma profunda influência na comunidade itaunense e um legado duradouro de melhores serviços de saúde. Ao lado das Irmãs Auxiliares da Piedade, o seu compromisso compassivo em prestar cuidados humanos e eficazes contribuiu grandemente para o bem-estar dos doentes e desfavorecidos. No mesmo ano, em de 16 de novembro, registrou informações sobre os serviços prestados no Hospital de Itaúna ao longo dos anos — em 1943, o movimento do estabelecimento incluía 62 cirurgias de grande porte, 6.558 consultas, 7.861 curativos, 2.207 injeções, 366 pequenas cirurgias e 5.138 receitas. Em 1944 foram 8.376 consultas, 84 cirurgias de grande porte, 8.146 curativos, 6.796 injeções, 482 pequenas cirurgias, 8.167 prescrições. Em 1945 foram 7.849 consultas, 76 cirurgias de grande porte, 7.842 curativos, 6.425 injeções, 436 pequenas cirurgias, 7.948 prescrições. De 1946 até outubro de 1947 foram 8.264 consultas, 69 grandes cirurgias, 7.896 curativos, 5.904 injeções, 392 pequenas cirurgias, 6.948 prescrições.

Em 1948, Irmã Benigna Víctima de Jesus completou sua missão em Itaúna. Seu legado é definido pelo amor, fé e compaixão, que ela demonstrou através de dedicação inabalável e altruísmo. Uma das observações finais da Irmã capta o seu compromisso — “procurei cumprir o dever que me foi imposto como também na medida de minhas forças, mantive como foi possível a minha capacidade, a ordem e o respeito dentro do Hospital”.

Sua passagem por Itaúna foi marcada por um profundo impacto, consolidando-se como um período de significativa evolução e humanização no atendimento à saúde da comunidade. Os efeitos das ações caritativas estenderam-se além dos cuidados médicos para abranger a espiritualidade, atraindo inúmeras pessoas a procurarem consolo em Deus. No hospital, desempenhou com diligência todos os trabalhos essenciais, auxiliando os pacientes e seus entes queridos, oferecendo acomodações, sustento e encorajamento. Através da sua organização nas tarefas cotidianas juntamente com as orações, bem como da sua abordagem compassiva para com os pacientes, familiares e funcionários, ela irradiava a sua santidade, resultando numa multidão de conversões e num aumento de pedidos de orientação e intercessão.

Na prática de enfermagem, demonstrou também um compromisso inabalável com o bem-estar dos familiares dos pacientes, garantindo-lhes muitas vezes auxílio no hospital ou na comunidade local, assegurando a sua proximidade durante o tratamento. Ela não apenas ofereceu provisões como alimentos, roupas e remédios, mas também deu orientações valiosas sobre como manter os cuidados adequados em casa.

Irmã Benigna, uma líder negra e resiliente, transcendeu as dificuldades impostas pela pobreza para se tornar uma figura de grande impacto na sociedade. Desde jovem, demonstrou uma fé profunda e um desejo intenso de ajudar os mais necessitados, onde se dedicou a cuidar de doentes, idosos, órfãos e marginalizados. Ao enfrentar inúmeras adversidades com resiliência, nunca permitindo que as barreiras sociais a impedissem de cumprir sua vocação. Sua determinação em servir aos outros se manifestava em atos concretos de amor e caridade, evidenciando uma espiritualidade enraizada no serviço ao próximo. Ela não apenas atendia às necessidades físicas das pessoas, mas também oferecia conforto espiritual, promovendo a dignidade humana e a esperança.

Nos registros oficiais do hospital de Itaúna, a dedicação da Irmã Benigna em manter a disciplina e a reverência dentro da instituição é expressa de forma eloquente, destacando a sua devoção, liderança e compromisso em cumprir diligentemente as suas responsabilidades. Nas décadas de 1930 e 1940, Irmã Benigna – uma mulher negra – deixou um legado imensurável de liderança e comprometimento não só na Santa Casa, mas no Município de Itaúna (MG).



Referências:

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino - Historiador Registro nº 343/MG

Ata da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira — Itaúna/MG. Registrado sob nº 16.539 às fls 272 vº do Livro A-XI, p.13-15.

Jornal Correio Paulistano, 15 de junho de 1941, Ed. 26.158, p.25. Hemeroteca Digital.

Jornal Correio Paulistano, 02 de fevereiro de 1941, Ed. 26.047, p.11. Hemeroteca Digital.

Jornal A Noite, Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1925, Ed.4.994, p.7. Hemeroteca Digital.

Jornal Irmã Benigna notícias Ed. nº77, p.4-5. Disponível em: https://www.irmabenigna.org.br/novo/pt/edicao.php?e=77.

CIANSP — Congregação das Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade em Caeté/MG. Disponível em: https://www.ciansp.com.br/fundador/.

AMAIBEN - Biografia da serva de Deus Irmã Benigna, Disponível em: https://www.irmabenigna.org.br/novo/pt/biografia.php.

Acervo fotográfico: Prof. Marco Elísio Coutinho (In Memoriam

 

sábado, 27 de abril de 2024

ASSOCIAÇÃO DE SANTA ZITA EM ITAÚNA

 

   Hoje, 27 de abril, celebra-se o dia de Santa Zita, virgem de Lucca, venerada padroeira das “Empregadas Domésticas”. Nascida em 1218 no povoado de Monsagrati, localizado perto da cidade de Lucca, na região italiana da Toscana, Zita vinha de uma modesta família camponesa. Envolvida no trabalho das famílias opulentas da nobreza, ela receberia sustento e roupas em troca de seu serviço dedicado. No entanto, este arranjo assemelhava-se a um “regime de servidão”, pois ela apresentava-se como uma dependente perpétua das famílias a quem servia. 

   Entre as décadas de 50 e 70, na próspera cidade de Itaúna, localizada na região Centro-Oeste de Minas Gerais, um notável coletivo de mulheres altruístas, predominantemente de ascendência africana, formou a Associação de Santa Zita. Sobre esse período, tivemos a oportunidade de conversar com quatro ex-trabalhadoras domésticas que faziam parte da Associação Santa Zita de Itaúna. Estas pessoas, Dona Edite Marques de Oliveira Melo (80 anos), Dona Geni Ferreira Pinto (86 anos), Dona Vicência Maria de Jesus (94 anos), e sua irmã, Dona Custódia Maria da Cruz Santos (96 anos), ainda emanam simpatia, vitalidade e devoção.


   Nas entrevistas, todas expressaram o profundo impacto que a Associação Santa Zita teve nas suas vidas, tanto em termos de crescimento espiritual como de desenvolvimento profissional. O Padre José Ferreira Neto, que desempenhou um papel fundamental de “guardião” da associação, foi amplamente citado com blandícia por todas as ex-integrantes. Recordavam-no com grande saudosismo, reconhecendo que, embora pudesse ter sido visto por alguns como um sacerdote vigoroso, porém, para elas foi um defensor amável e lépido. Durante entrevista, uma das participantes revelou que havia organizado uma apresentação teatral improvisada para o Padre Zé Netto, apesar de sua aversão a surpresas. No entanto, o resultado revelou-se inesperadamente agradável, pois “o padre caiu na gargalhada” e apreciou a experiência.

   A primeira missa era celebrada às 6h na Igreja da Matriz, momento que elas lembram ter participado antes de iniciarem o seu labor às 7h. Refletindo sobre a história de Santa Zita, uma das ex-domésticas relembrou as árduas horas que dedicou à casa dos patrões. Trabalhando incansavelmente sete dias por semana, carregou uma carga de trabalho superior a 8 horas por dia — “O patrão gostava de almoçar e jantar”. Contudo, para além das suas funções profissionais dentro das casas destas famílias, estas trabalhadoras domésticas também realizavam um trabalho afetivo e social, muitas vezes cuidando de crianças na ausência dos seus ocupados tutores.

   Neste período específico, o Dr. Célio Soares de Oliveira, Prefeito Municipal em exercício, aprovou oficialmente a Lei nº 509, em 29 de março de 1960. O artigo primeiro desta lei concedia permissão para doação de um terreno na vila Nogueira Machado à "Associação de Santa Zita". Os artigos segundo e terceiro estipulavam que este terreno se destinava à construção de uma residência para “as domésticas idosas e desamparadas”. Porém, se nada fosse construído no prazo de três anos, o terreno reverteria a “Patrimônio Municipal”.

   Já em 30 de janeiro de 1963, o prefeito alterou a Lei nº 509, passando pela Lei nº 627. A modificação refere-se especificamente ao artigo primeiro, que passou a ter a seguinte redação: “Fica o senhor Prefeito Municipal autorizado a doar à Associação de Santa Zita, 1 (um) lote de terreno com 600 m2 (seiscentos metros quadrados) [...] à Rua Antônio Orlando, nesta cidade”.

   As fiéis seguidoras de Santa Zita de Itaúna relembraram com alegria as diversas visitas e trabalhos espirituais que realizaram ao lado do padre Netto em diferentes localidades de Itaúna, especialmente no Córrego do Soldado. Além disso, em 1972, o Cônego José Netto organizou uma “romaria” à Basílica de Nossa Senhora Aparecida com as “domésticas de Itaúna” durante o “Ano Marial”. Este evento reuniu devotos de todos os estados, que foram calorosamente recebidos pelo Cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. A história desta experiência inesquecível foi rememorada por todas em seus depoimentos.

   Conta-se que aqueles que fizeram a “peregrinação” ao Santuário de Aparecida, buscando também a intercessão de Santa Zita, tiveram suas orações atendidas no mesmo ano. Ainda na década de 1972, um marco significativo foi alcançado com a promulgação da Lei 5.859/1972, que visava definir os direitos dos trabalhadores domésticos e garantir-lhes uma vida profissional mais digna. Uma devota seguidora de Santa Zita, diz se lembrar deste período, nos relata recordar vividamente, sobretudo, do momento em que cumpria diligentemente as suas tarefas diárias de limpeza e ouviu as notícias transmitidas pela rádio. Pouco depois, o seu empregador abordou-a e informou-a de que, a partir desse dia, ela teria direito a todos os benefícios exigidos pela lei recém-promulgada.

   No interior da igreja Matriz de Sant'Ana em Itaúna, comumente chamada de Igreja Matriz, encontra-se a venerada imagem de Santa Zita, que anualmente era adornada com uma coroa pelas irmãs devotas e com procissão ao redor. O estimado Maestro Henrique cuida de alguns artefatos que foram gentilmente cedidos para nossa pesquisa, entre eles o estandarte e diversos itens associados à Associação Santa Zita. O Maestro teve um papel significativo guiando-nos até às irmãs devotas e oferecendo “pistas” valiosas ao longo de nossa jornada investigativa.

   A ausência de Dona Ivolina Gonçalves foi profundamente sentida na esfera administrativa. Esta associação teve também o seu valor na ajuda às pessoas que se encontravam desempregadas, onde eram recomendadas, muitas vezes pela administradora, que rapidamente conseguia colocá-las num local de trabalho “casa de família”. Com a morte da coordenadora em 1977, o grupo ficou disperso e não deu mais seguimento com a Associação.

   Vale ressaltar dois detalhes dignos de nota. O primeiro detalhe envolve uma iniciativa legislativa conhecida como Projeto de Lei Municipal número 08/2011, de autoria do Edil Lucimar Nunes Nogueira e aprovada oficialmente por Lei de número 4.545 pelo Prefeito Municipal Eugênio Pinto em 18 de fevereiro de 2011. Essa lei instituiu o “Dia Municipal da Empregada Doméstica em Itaúna, que deverá ser comemorado anualmente no dia 27 de abril. É importante ressaltar que esta data comemorativa foi incluída no Calendário Oficial de Eventos de Itaúna. Passando para o segundo detalhe, a Associação Santa Zita possuía CNPJ válido com o CEP número 35680-030, no município de Itaúna, iniciando em 31/07/1972 com atividades de associações de defesa dos direitos sociais e organizações associativas ligadas à cultura e arte.

   O compromisso inabalável da virgem de Lucca com a caridade cristã conquistou seu amplo reconhecimento entre os pobres. Apesar de viver do trabalho, ela permaneceu firme em sua missão. Ao longo da sua vida, Santa Zita dedicou-se a prestar assistência aos menos favorecidos e aos doentes. Esta devoção altruísta persistiu até a sua morte, aos sessenta anos, em 27 de abril de 1278.

   Com o passar dos anos, a notícia de sua santidade se espalhou e, em 1652, um fato surpreendente foi revelado após a exumação de seu corpo — estava perfeitamente conservado, desprovido de quaisquer sinais de decomposição, o cadáver havia secado e transformado em estado mumificado. Assim, este acontecimento extraordinário solidificou a sua canonização em 1696, sancionada pelo Papa Inocêncio XII. Em 11 de março de 1955, o Papa Pio XII proclamou Santa Zita "protetora universal das servas” ou “padroeira das empregadas domésticas”.

   Atualmente, seu corpo continua repousando em uma capela que leva seu nome, encerrada em um relicário de vidro, venerado pelos devotos, localizada no interior da Basílica de São Frediano, igreja romana em Lucca, na Itália. Hoje recordamos também o 746º aniversário da morte desta santa medieval que viveu no século XIII e continua a viver no coração dos seus fiéis.

   Assim, utilizando registros imagéticos, relatos orais, fontes primárias e impressas, reunimos informações valiosas sobre esta associação e essas incríveis trabalhadoras domésticas, que consideramos um testemunho significativo dos aspectos tangíveis e intangíveis do patrimônio cultural de Itaúna.

Padre José Ferreira Netto


Primeiro grupo da Associação de Santa Zita em Itaúna 

Monsenhor Hilton Gonçalves de Sousa - Monsenhor Álvaro Negromonte


Referências: 

Texto, pesquisa e arte: Charles Aquino - Profissão Historiador Registro nº 343.

Apoio a pesquisa: Luiz Assis

Apoio a pesquisa: Maestro Henrique

Apoio a pesquisa: Professor Pe. José Raimundo Batista Bechelaine

domingo, 24 de março de 2024

COMÉRCIO TRANSATLÂNTICO


    Dia 25 de março — "Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos" é reconhecido pelas Nações Unidas. Esta data significativa serve como um lembrete dos esforços globais em curso para erradicar as injustiças enraizadas no comércio de escravos. Enfatiza também o papel crucial da educação no reconhecimento do profundo impacto deste acontecimento histórico na nossa sociedade moderna e na abordagem das suas consequências duradouras. Ao longo da história, mais de 15 milhões de indivíduos, incluindo homens, mulheres e crianças, foram transportados à força através do Atlântico.
    Numa mensagem de vídeo, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, enfatizou a importância de honrar a memória dos milhões de indivíduos afrodescendentes que suportaram as atrocidades da escravatura e do comércio transatlântico de escravos. Salientou ainda que este comércio estabeleceu e perpetuou um sistema mundial de exploração que persistiu durante mais de quatro séculos, devastando profundamente famílias, comunidades e economias.
    Ao refletir sobre a resiliência daqueles que sofreram sob a crueldade dos traficantes e proprietários de escravos, Guterres reconhece as contribuições significativas feitas pelos indivíduos escravizados para a cultura, o conhecimento e as economias dos países para os quais foram transportados à força. Embora o comércio transatlântico de escravos tenha terminado há mais de dois séculos, o chefe da ONU reconhece que as ideologias prejudiciais da supremacia branca que o alimentaram ainda persistem hoje.
    Guterres sublinha a necessidade urgente de desmantelar as consequências duradouras da escravatura e do comércio transatlântico de escravos, combatendo ativamente o racismo, a injustiça e as desigualdades, e promovendo comunidades e economias inclusivas que proporcionem oportunidades iguais para todos viverem em paz e dignidade.

Secretário-geral da ONU, António Guterres



Censo em 1831 Sant'Ana do Rio São João Acima (Itaúna/MG)



Referências:
Organização, texto e arte: Charles Aquino

ONU News: https://news.un.org/pt/story/2021/03/1745582

UFMG Cedeplar - Poplin-Minas

Imagens ilustrativa: Johann Moritz Rugendas

Imagem Ilustrativa: MultiRio – História do Brasil, O tráfico negreiro. "Os compartimentos de um navio negreiro. Gravura publicada em 1830 no livro Notices of Brazil in 1828 and 1829, de R. Washl. Domínio público, Arquivo Nacional – Ministério da Justiça".

 

sexta-feira, 22 de março de 2024

DISCRIMINAÇÃO RACIAL

Todos os anos, no dia 21 de março, é (re)lembrado o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu esta data em memória das manifestações contra a Lei do Passe na África do Sul. Foi neste dia de 1960 que eclodiram os protestos contra a lei que impunha restrições à circulação da população negra. Infelizmente, estes protestos foram recebidos com força brutal por parte do exército sul-africano, resultando no trágico “massacre de Sharpeville”, onde 69 pessoas perderam a vida e outras 186 ficaram feridas. Reconhecendo a importância deste evento, a ONU declarou oficialmente o dia 21 de março como um dia para aumentar a conscientização sobre a discriminação racial em 1966.

Após o ano de 2023, o dia 21 de março também passa a ser (re)lembrado como o Dia Nacional das Tradições de Raízes Africanas e das Nações do Candomblé. A Lei 14.519/23 foi sancionada em 2023 pelo presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva.


Referências:




Imagem Ilustrativa: Pinterest

Organização e Pesquisa: Charles Aquino


sábado, 9 de março de 2024

AFRO-ITAUNENSES

Como cidadão itaunense e descendente de herança afro-brasileira, senti-me obrigado a sair da zona de estudos e expressar publicamente minha preocupação e indignação. Acredito que a frase acima não confrontou apenas a narrativa histórica do  município de Itaúna, mas também a ancestralidade de seus habitantes, que inclui a escravização de minha trisavó paterna, o nascimento da minha bisavó após a promulgação da Lei do Ventre Livre, e o eventual nascimento de meu avô, que só conseguiu o direito ao registro oficial de nascimento aos 25 anos em 1937, que posteriormente fixaram residência em Itaúna, local de descanso final de uma jornada marcante, deixando um valioso legado para seus descendentes — o direito à educação. 
   
Ao realizar pesquisas rotineiras para elaboração de meus trabalhos, me deparei com um texto complexo em todos os sentidos que está disponível no site da Prefeitura de Itaúna/MG. Assim, a narrativa histórica se apresentou confusa dificultando uma compreensão mais precisa. Após uma segunda leitura minuciosa, finalmente comecei a entender que o texto se tratava da “permuta de padroeiras” no município do século XIX. Mesmo tentando compreender a informação de que as “igrejas foram trocadas” naquela época, imagino que seria difícil transposição de duas construções, no entanto, dadas as informações de livros de história do município que registram esse acontecimento, percebi que seria uma troca de oragos, e não das edificações. 

Portanto, seria aceitável considerar isso como um mero “deslize histórico”, podendo até ser enviada uma mensagem à Secretaria de Cultura e Turismo de Itaúna, pedindo a retificação do texto, cujo material apresentado, nem sequer tiveram a preocupação de fornecer as referências adequadas e necessárias. À medida em que realizava a leitura mais atenta do texto, descobri que as informações, em parte, eram meramente baseadas em “achismos”, ou seja, um texto totalmente abstrato e desconecto da história do município. Porém, o mais alarmante ainda estava por vir, pois neste texto trazia uma declaração de que os negros naquela época “roubavam” dentro da igreja do arraial de Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna. Eis aqui, parte do trecho retirado do texto que está disponível no site da prefeitura de Itaúna:

“As igrejas foram trocadas. O problema é que os padres queriam manter as padroeiras. Sant'Ana, dos portugueses, agora era dos negros. Senhora do Rosário, dos negros, virou padroeira dos brancos. Os negros não aceitaram. Toda noite, entravam na Matriz e roubavam a Imagem de Nossa Senhora do Rosário e levavam para a nova Capela, no alto do Morro. Sendo lenda ou não, fato é que essa história inspirou a festa mais tradicional da cidade: o Reinado.”

Como mencionado no texto acima, sendo lenda ou não, se registrou que os pretos que faziam parte da comunidade de Itaúna eram ladrões. Neste momento ficou evidente que os (in)responsáveis desta informação, estavam totalmente equivocados. Este incidente representa, no meu ponto de vista, uma violação e rompimento significativo do limite histórico, cultural e ético em toda a história do município, minando as extensas pesquisas e documentações registradas por historiadores e pesquisadores ao longo dos anos. Vale ressaltar que no censo inicial realizado em 1831, aproximadamente 70% da população do arraial de Santana (hoje Itaúna) era de herança afrodescendente. 

Até o momento presente, não encontrei nenhum registro ou declaração de qualquer historiador ou publicação que indique ou declare que os pretos naquela época, tenham praticado roubos à paróquia de Santana de Itaúna. Ao analisar cuidadosamente essa “barbárie histórica”, expresso a minha mais profunda frustação e a minha preocupação com a gestão e divulgação da história do nosso município.  É provável que muitos indivíduos que pesquisaram a história de Itaúna, neste período em que continua disponível essa matéria no site da Prefeitura, tenham encontrado essas informações, que supostamente seriam de “utilidade pública”, principalmente para a comunidade itaunense. No entanto, este não é o caso. 

É imprescindível que essas informações sejam prontamente corrigidas. Proponho que os textos sejam referenciados de forma completa e correta. Além disso, recomendo expressar um sincero pedido de perdão por esta violação histórica da memória dos ancestrais e descendentes afro-brasileiros da comunidade itaunense, que são bens culturais inestimáveis, tangíveis e intangíveis, transmitidos através de gerações. Neste sentido, invoco as palavras do artista Belchior e peço permissão para incorporar duas palavras em sua canção “Roupa Velha Colorida”: No presente a mente, o corpo é diferente, e o passado de “insultos e acusações” é uma roupa que não nos serve mais... precisamos rejuvenescer!” Só assim, acredito que terei tranquilidade para retornar meus estudos e pesquisas, mas mantendo-me vigilante.  
Charles Aquino, em 6 de março 2024



Reinado em Itaúna


Nota: Ao apurar a postagem no site da Prefeitura hoje (11/03/2024), houve uma reformulação no texto, mas até o momento não foi registrada nenhuma nota referente à postagem antiga. Disponível em: Conjunto Arquitetônico do Morro do Rosário


Arte e organização: Charles Aquino
Imagem meramente ilustrativa: Pinterest