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terça-feira, 2 de junho de 2026

VOZES DO REINADO

FESTA REINADEIRA DE ITAÚNA: PATRIMÔNIO

A série documental A História do Reinado em Itaúna oferece ao público a oportunidade de conhecer as narrativas, memórias e experiências compartilhadas pelos próprios integrantes de uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas do município.

Organizada em quatro episódios temáticos, a produção aborda diferentes dimensões do Reinado, contemplando suas narrativas de origem, a trajetória das guardas, a centralidade da fé e a importância da festa como espaço de preservação da memória coletiva e da ancestralidade afro-brasileira.

Mais do que registrar uma celebração tradicional, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural em seu cotidiano.

Antes da análise dos episódios, é importante destacar que a série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal, constitui um registro fundamentado principalmente na memória coletiva, na tradição oral e nos testemunhos dos próprios integrantes.

Ao longo dos quatro episódios, as narrativas são construídas a partir das experiências, crenças, lembranças, devoções e interpretações compartilhadas por capitães, reis, rainhas, congadeiros e demais participantes da manifestação.

Nesse sentido, o documentário não se apresenta como uma pesquisa histórica baseada na análise crítica de documentação escrita, registros arquivísticos ou debates historiográficos especializados.

Sua proposta consiste em dar voz aos sujeitos que vivenciam e preservam a tradição do Reinado, registrando narrativas de origem, valores religiosos, símbolos, práticas culturais e memórias transmitidas entre gerações.

Dessa forma, os relatos apresentados devem ser compreendidos como expressões da memória social e da identidade cultural dos grupos envolvidos.

 Elementos como a lenda de Chico Rei, o resgate de Nossa Senhora do Rosário pelas guardas e outras narrativas presentes nos episódios integram um universo simbólico construído e preservado pela tradição oral, desempenhando papel fundamental na formação da identidade do Reinado.

Ainda que nem sempre possam ser verificadas por meio da documentação disponível, essas narrativas possuem relevância histórica por revelarem as formas pelas quais as comunidades interpretam suas origens, atribuem significados ao passado e fortalecem seus vínculos coletivos no presente.

Sob essa perspectiva, o documentário oferece uma importante fonte para a compreensão de como os próprios congadeiros interpretam sua história, sua fé, sua ancestralidade e sua trajetória coletiva. 

Mais do que buscar estabelecer uma reconstrução factual das origens do Reinado, a produção permite observar os significados atribuídos à manifestação por aqueles que a mantêm viva na contemporaneidade.

Do ponto de vista metodológico, torna-se necessário distinguir memória, tradição oral e história. Enquanto a história acadêmica busca compreender o passado por meio da análise crítica de diferentes fontes documentais, a memória constitui uma construção social permanentemente atualizada pelos grupos que a preservam.

A tradição oral, por sua vez, atua como um importante mecanismo de transmissão de conhecimentos, valores, crenças e experiências entre gerações. Essas diferentes formas de interpretação do passado não devem ser vistas como excludentes, mas como dimensões complementares que contribuem para a compreensão dos fenômenos culturais.

Assim, o principal valor histórico da série documental não reside na comprovação documental dos acontecimentos narrados, mas na possibilidade de compreender como os participantes do Reinado elaboram suas lembranças, constroem suas identidades e atribuem sentido à própria existência da manifestação.

A estrutura da série documental acompanha um percurso narrativo que parte das narrativas de origem do Reinado, avança para a organização e a continuidade das guardas, aprofunda-se na dimensão espiritual da manifestação e culmina na celebração pública da festa.

Ao longo dos quatro episódios, os depoimentos dos participantes revelam como memória, ancestralidade, fé, tradição e pertencimento são constantemente articulados na construção da identidade congadeira, expressa nas práticas e vivências do Reinado.

Dessa forma, mais do que apresentar uma cronologia dos acontecimentos, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural na contemporaneidade.

Ao registrar essas vozes, o documentário preserva um importante patrimônio imaterial e oferece um testemunho significativo sobre os processos de construção da memória coletiva, da religiosidade popular e da ancestralidade afro-brasileira em Itaúna.

    Ao mesmo tempo, a série contribui para reafirmar os vínculos entre essa tradição e a trajetória histórica de Itaúna — a antiga Sant’Ana do Rio São João Acima, a "Pedra Negra" que se consolidou como um importante espaço de preservação da memória, da religiosidade popular e da herança afro-brasileira no centro-oeste mineiro.




SEGUNDO EPISÓDIO ✅

TERCEIRO EPISÓDIO ✅

QUARTO EPISÓDIO ✅


  © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).


Revisão de terminologias e contribuições sobre aspectos culturais do Reinado em Itaúna:
Maria Luiza de Oliveira Silva


REFERÊNCIAS:

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A História do Reinado em Itaúna – Episódio 1. YouTube, 01/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p0WuchARm_c. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. As Guardas – Episódio 2. YouTube, 11/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PHCkF8z7roM. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Fé – Episódio 3. YouTube, 18/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uPtRln9vjhM. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Festa – Episódio 4. YouTube, 26/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Az0mXhLqbKU . Acesso em: 10 jun. 2026.

   

Nota sobre a imagem de capa

A imagem utilizada na capa deste documentário foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), tendo como referência fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e informações históricas relacionados ao Reinado de Itaúna. Trata-se de uma representação artística inspirada no patrimônio cultural e religioso da manifestação, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.

domingo, 24 de maio de 2026

ITAÚNA: FESTA DO REINADO

ROSÁRIO ITAÚNA HISTÓRIA E MEMÓRIA

DOCUMENTÁRIO  

O blog "Afro Memória Itaunense" apresenta a série documental “ Festa do Reinado" em Itaúna, produção audiovisual realizada pela Prefeitura Municipal de Itaúna dentro do Programa de Educação Patrimonial dedicado à preservação e valorização deste importante bem cultural do município.

A narrativa é conduzida pelo professor e pesquisador Geraldo Fonte Boa, cuja trajetória está profundamente vinculada aos estudos da história e das tradições populares itaunenses.

Originalmente divulgada em oito episódios curtos, a série buscou registrar aspectos históricos, religiosos, simbólicos e culturais da Festa de Nossa Senhora do Rosário — manifestação que integra uma das mais importantes expressões da religiosidade popular e da memória afro-brasileira em Itaúna.

Mais do que uma festividade religiosa, o Reinado constitui um patrimônio coletivo construído ao longo de gerações, envolvendo fé, devoção, musicalidade, ancestralidade, identidade comunitária e resistência cultural. 

Os episódios apresentados pela Prefeitura em 2018 tiveram justamente o objetivo de aproximar a população dessa herança histórica, reforçando sua importância para a preservação da memória local.

Nesta edição especial reunida pelo Afro Memória Itaunense, os oito episódios foram organizados em uma única página, permitindo ao público acompanhar de forma contínua a narrativa histórica sobre a formação e o significado da Festa de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.

Ao longo da série, são abordados temas fundamentais da tradição do Reinado:

A origem histórica da festa em Itaúna;

Sua popularização no município;

O papel das capelas e dos espaços sagrados;

Os festejos e rituais tradicionais;

As Guardas do Reinado e seus significados;

Os sons, cores e símbolos presentes nas celebrações;

A importância das Rainhas da festa;

A preservação patrimonial vinculada ao Cruzeiro e às Capelas de Nossa Senhora do Rosário.

O episódio final destaca a dimensão patrimonial da celebração, lembrando que as capelas e o Cruzeiro vinculados ao Reinado constituem bens tombados, preservando uma tradição que atravessa mais de 150 anos da história itaunense.

O Afro Memória Itaunense disponibiliza esta compilação com finalidade exclusivamente cultural, educativa e de preservação da memória histórica local, mantendo os devidos créditos à produção original realizada pela Prefeitura Municipal de Itaúna e à narrativa do professor Geraldo Fonte Boa.

Documentario Reinado Ep 01

Documentario Reinado Ep 02

Documentario Reinado Ep 03

Documentario Reinado Ep 04

Documentario Reinado Ep 05

Documentario Reinado Ep 06

Documentario Reinado Ep 07

Documentario Reinado Ep 08

Referências e Créditos

Produção Original: Prefeitura Municipal de Itaúna.

Narrativa Histórica: Professor Geraldo Fonte Boa.

Série produzida em 2018 dentro do Programa de Educação Patrimonial do Município de Itaúna/MG.

Material disponibilizado para fins culturais, educativos e de preservação da memória histórica do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna/MG.

© ITAÚNA DÉCADAS

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Compilação e organização:

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

sexta-feira, 20 de abril de 2018

REINADO EM ITAÚNA

FESTESOS REINADO E CONGADA
O “reinado” ou “congada” em Itaúna
João Dornas Filho
1941

Apesar das medidas proibitivas tomadas ultimamente pelas autoridades eclesiásticas, ainda se realizam em Minas, em épocas, que variam de lugar a lugar, as festas africanas do “Reinado” ou “Congada”.

Como acontece com a maioria das festas negras, o “Reinado” se deixou influenciar pelo catolicismo, e as cerimônias se revestem desse caráter misto que não deixa de emprestar-lhes uma feição de delicioso pitoresco.

Os festejos do “Reinado” em Itaúna, Oeste de Minas, se realizam a 15, 16 e 17 de agosto, em honra da Senhora do Rosário. Não sei por que motivo escolhem os pretos o dia da Assunção da Virgem, para início dos festejos, quando homenageiam a sua, padroeira Senhora do Rosário, que tem o seu dia no calendário de outubro.

A festa se inicia propriamente na noite de 14 quando se celebra uma ladainha na d0 Rosário na Capela da Santa, situada num outeiro e que foi a primitiva matriz do antigo arraial de Santana de São João Acima.

Essa ladainha era até pouco tempo rezada pelo vigário, com o concurso do povo e dos negros vestidos a caráter. Hoje, com a proibição episcopal, os pretos, que foram expulsos das festas católicas do Rosário, construíram uma casa ao lado da capela, onde realizam as suas cerimônias, obedecendo em tudo à tradição.

Cada ano escolhem os reis da festa, geralmente pessoas de recurso, que oferecem nesses dias verdadeiros banquetes aos negros e mais pessoas que o vão visitar. 

Mas existe também os reis perpétuos, cargos que são de herança, atribuídos exclusivamente a negros, que são, como reis, obedecidos e tratados respeitosamente pelos seus súditos. Vão até à frente dos reis temporários, sob pálio e com uma guarda de honra de espadas alçadas.

A dança se compõe de dois “ternos” de personagens: os “congos” e os “moçambiques”.  “Terno” para eles tem a significação de grupo e não apenas de três pessoas.  Os “congos” parecem ter na festa uma situação de aristocrática ascendência, pois se compõem de pretos mais alinhados e até mesmo de mulatos e quase brancos.

Vestem-se de calções de cores fortes (vermelho vivo, verde, amarelo) enfeitados de galão de prata e ouro; saiotes também de cores berrantes e muito enfeitados; capacete ornado de papel de seda repicado e espelhinhos brilhantes ao sol; meias compridas, calçados de chinelos de tapete atados aos tornozelos.

Obedecem a uma organização meio militarizada, colocados em duas fileiras, um após outro, em cujo centro vai o capitão, tirando as cantigas, que são respondidas pelo resto da turma. Cantigas de ritmo meio tristonho e que traem já uma influência estranha ao seu conteúdo africano:

Em nome de Deus,
Pai Eterno
Com vosso nome
hei de me salvar.

Pai Eterno,
rei de todo o reinado,
com vossa coroa
nossos pecados serão perdoados.

A Senhora do Rosário
é feita de ouro em pó.
Abraçando a vossa cora agora,
filho da Virgem,
filho de Nossa Senhora.

Nesta fé eu venho vindo,
nesta fé hei de alcançar.
Perdoai os meus pecados
com ela hei de me salvar.

Na beira do mar cheguei,
grande perfume encontrei,
Senhora do Rosário
com ela eu estarei.

Lá envém o sol
envém  a lua.
Lá envém a nossa estrela,
nossa estrela matutina.

Glória a Deus no céu,
Jesus cá na terra
A virgem Maria
é quem nos governa.

Que casa é esta
que chegamos agora?
É de uma irmã
da Virgem Senhora.

É o vento que os atrai,
o mar que nos atrapalha
para no porto chegar (bis)

Kerié-leizon, kerié-leizon
lá no fundo do mar.

A casa de nossa Mãe
do céu é da cor de ouro.
Céu, céu, céu, céu,
tem para mim um tesouro.

Senhora do Rosário
traz uma estrela na testa.
Foi os anjos quem puseram
no dia da nossa festa

Virgem do Rosário
vossa casa cheira,
cheira a cravos e rosas
e flor de laranjeira.

Aquela estrela brilhante
que encontrei no mar,
é a Virgem do Rosário
que vamos levar.

Quem dera ser feito a aranha,
daquelas que tecem pano,
p’ra tecer os seus cabelos
que vivem me maltratando.

Eu sou aquele menino
que nasceu no mês de maio,
cumprindo sina de pobre,
passando muito trabaio ...

Ao que o coro responde, cantando invariavelmente os dois últimos versos:
Cunprindo sina de pobre,
passando muito trabaio ...

Quando a procissão se detém por qualquer motivo, executam bailados do curioso aspecto coreográfico, principalmente o “recortado”, que se assemelha, com mais movimentado e calor, ao “changez de places” (trocar de lugar) das quadrinhas francesas.


PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL

Os “moçambiques” são a plebe, a patuleia do cortejo real, e cuja organização não obedece às leis militares. Dançam embolados num só grupo e a sua dança é mais bárbara do que a dos “congos”. Pulam, agacham-se, rebolam, sacodem-se em trismos endemoniados e cantam quase sempre em dialeto.

Vai essa melodia dos “congos”, para dar uma ideia da sua música, onde ainda impera a profunda melancolia das senzalas:


Samambaia virou cacunda
meia noite quero saravá.

Ai orê, tetê,
minha banda
Salve povo do calunga,
salve os congos de Aruanda.

Pai Joaquim tetê,
pai Joaquim hé, há,
pai Joaquim veiu de Angola,
pai Joaquim veio de Angola
angorá.

Adeus, minha pemba,
adeus, minha guia,
minha terra é muito longe,
minha ganja é na Baia,
minha terra é muito longe,
minha ganja é na Baia.

Quem quer viver sobre o mundo
quem quer vier sobre o mar,
eu sou a cabocla Jandira,
vivo nas ondas do mar.

Tico-tico parou monjolo,
Sabiá cuou fubá,
crenda falta ingombe,
umbarata pucha orango é.

Uenda condembaconjó de oviti
ocema de unganga Uenda indira
movirini de otenhá sucumbô no calunga
conversa convirápoco no tendim, overim
otenha ó afa ongona de corittá catangunga
Oé.

Na Aruanda oué,
na Aruanda oûê.
Marimbá oié (bis).
Na Aruanda calunga,
toma conta de mim
na Aruanda.

A diamba pui já me ganda
chora meu peitori ajué.

Ubanda de lunga
pai Jacob de Umbanda
pá tacá patangoma
na calunga.

Quem foi que matou quindinmba
p’ra fazer timbiri?
se não fosse tatu-peba
quindimba não tava aqui.

Carneiro morreu
dentro da lagoa.
Bicho cambara
e morrendo atoa.

PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL

A música dos “moçambiques” é também de pronunciado sabor africano. Vestem-se com simplicidade. Um calção branco com galões, saiote branco enfeitado de fitinhas álacres e o capacete com espelhos (O espelho no capacete não tem apenas a função de adorno, como a princípio se supõe.

Tem um destino mais transcendente, de fundo fetichista, pois é colocado no capacete para afastar os ventos maus e os maus pensamentos. Ao ser comprado na loja, o espelho não pode ser mirado senão pela pessoa que o vai usar, sob pena de não cumprir o seu destino). Os pés descalços para desimpedir a coreografia que reclama sustância nas canelas.

Vingam-se dos “congos” com a candura de uma lenda que contam: Nossa Senhora do Rosário apareceu no mar Oceano e o povo se reuniu para levá-la à igreja. O padre convidou-a a sair e ela não atendeu. Vieram os” moçambiques”. Rufaram as caixas e cantaram. E foi, a Nossa Senhora do Rosário sorriu e acompanhou-os para a igreja, onde ainda está ...

Não só os “congos” como os “moçambiques” usam instrumentos de percussão como a caixa, o reco-reco, xique-xique, o caxambu e a cuica (eles falam puita). A viola e a sanfona também costumam aparecer, mas apenas com os “congos”.
A organização do cortejo é a seguinte: à frente, guiados por um estandarte da Senhora do Rosário que é ladeado por guardas de toalha de crivo ao pescoço, vão os “moçambiques”. Atrás vem os “congos”. 

Imediatamente vêm os reis perpétuos de coroa à cabeça e sob pálio ladeados por cortesões empunhando as varas (emblemas de autoridade). Seguem-se por fim os reis temporários, também sob pálio, com coroa e cetros de prata. Na cauda a multidão suarenta e devota, que acompanha o cortejo até o alto da capela, onde cumpre promessas e se embebeda nos botequins improvisados em torno do tempo.

Essas promessas são feitas durante o ano para serem cumpridas nos dias do “reinado”. Assim: no centro da capela estão assentados o vigário e os mesários em torno de uma mesa. Chega o penitente e se ajoelha ao pé do padre. Este toma uma coroa de lata entre as muitas que se acham sobre a mesa e coloca-a na cabeça do devoto, que se levanta e volta à porta principal, onde o aguardam parentes e amigos com guarda-sol aberto para acompanhá-lo em tantas voltas em torno da igreja quantas tenha sido as que prometera.

Os negros, pulando e cantando, seguem também os penitentes, que se revessam volteando a capela até que o sol se esconde de todo. Isso durante os três dias dos festejos que rendem contos de reis de esmolas todo ano.

O arcebispo de Belo Horizonte, tendo em vista que a festa não condiz, pelo seu sabor meio-pagão, com a dignidade da Igreja, proibiu, há poucos anos, intromissão do vigário, assim como interditou a capela para sua realização. Entretanto, os pretos construíram no mesmo logradouro um edifício, sem aparência externa de tempo católico e continuam a realizar anualmente as cerimônias do culto à Senhora do Rosário.

É tradição em Itaúna que a capela interditada pertence mesmo aos negros. 
É o caso que os pretos, no decênio de 1840, construíram pessoalmente, nas folgas que lhes dava o cativeiro, uma capela privativa no local em que se assenta hoje a igreja matriz. 

Estando naquele tempo a matriz instalada na capela do morro, e tendo o arraial se expandido para o lado em que estava a capela dos pretos, uns missionários capuchinhos que por lá estavam construindo o cemitério local, e por causa de um milagre que contarei mais adiante, sugeriram a permuta das capelas: ficaram os pretos com a do morro da Lage e cederiam para a matriz a que havia construído na praça João Pessoa, hoje praça da matriz. E assim se fez.
E a lenda que acima referi é a seguinte: quando se concluiu entre o vigário e os negros a permuta das capelas, tratou-se logo de fazer descer do alto da Lage os paramentos, as imagens e demais pertences da matriz, que lá se achavam.

Descidas as imagens para a nova matriz, verificou-se que a da Senhora do Rosário, durante a noite, desaparecera milagrosamente do novo templo e voltava para o seu antigo nicho no alto do morro.

Reuniram-se os negros e cantando e dançado as suas danças, repunham-na no altar da nova morada. Esse fato se repetiu três vezes, no fim das quais, frei Eugênio sugeriu que, sendo essa a vontade da Senhora do Rosário, lá a deixassem com os pretos e muitas festas se fizessem em regozijo de tão evidente milagre.
HISTÓRIA DO REINADO EM ITAÚNA



  
Textos: FILHO, João Dornas.  Livro Euclides, Rio de Janeiro 15 de junho de 1941, V.II Tomo II, nº 8, p. 113, 114, 115, 116;
FILHO, João Dornas. A influência Social do Negro Brasileiro. ed. Guaíra, SP-Rio: Coleção Caderno Azul, nº 13, 1943, p. 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26.
Acervo fotográfico 40/50: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho, Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira, Museu Municipal de Itaúna