quinta-feira, 7 de maio de 2026

O MAESTRO DA PEDRA NEGRA

 

HISTÓRIA HINO MUNICÍPIO DE ITAÚNA

Poucas cidades podem orgulhar-se de ter sua identidade cívica tão fortemente marcada por uma obra musical como Itaúna.

 O Hino Oficial do Município, cuja letra foi composta pelo Dr. José Valeriano Rodrigues e cuja melodia nasceu do talento do Professor e Maestro Jesus Ferreira, é uma síntese da história, da fé, do trabalho e do progresso que moldaram a comunidade.

Jesus Ferreira, homem simples e profundamente ligado às raízes itaunenses, possuía a habilidade rara de traduzir em sons aquilo que a poesia exalta em palavras.

Sua música deu vida aos versos que celebram Sant’Ana, a fé dos primeiros habitantes, o trabalho árduo dos ancestrais e o desenvolvimento industrial da cidade.

Em 1956, escrevendo de São Paulo, o Professor Jesus Ferreira dirigiu-se ao irmão Cosme Caetano da Silva – "jornalista, advogado, radialista, dramaturgo, político e também homem das artes". Nessa carta, registrada com carinho e esperança, ele relatava o desafio de musicar os versos de Valeriano Rodrigues e o desejo de ser útil à sua “cara Itaúna”:

“Fiz tudo o que estava ao meu alcance para agradar a vocês e me sentirei muito feliz se puder ser de alguma forma útil a nossa cara Itaúna. Se conseguirmos o prêmio, irei até aí, e celebraremos…”

A carta revela não apenas o processo criativo, mas também o afeto que Jesus nutria pela cidade e pela família. Com humildade, ele confiava que seu trabalho pudesse conquistar o júri e perpetuar-se como símbolo municipal.

Veio a confirmação: a melodia de Jesus Ferreira foi escolhida em concurso público, recebendo a consagração oficial. A Lei Municipal nº 331, de 11 de outubro de 1956, sancionada pelo prefeito Milton de Oliveira Penido, oficializa o hino, legitima a escolha popular e reconhece a obra de Valeriano Rodrigues (letra) e Jesus Ferreira (melodia).

A norma resultou de um concurso público, previsto por Lei Municipal que estabeleceu uma comissão julgadora composta por personalidades locais (Lincoln Nogueira Machado, Padre Waldemar Antônio de Pádua Teixeira e Professor Osvaldo Chaves).  Mais tarde, a Lei nº 416, de 2 de junho de 1958, reforça juridicamente a decisão, corrige e consolida a redação legal, transformando o hino em um símbolo municipal.

A importância do Hino de Itaúna e dos demais símbolos oficiais foi reforçada décadas depois pela Lei nº 3.278, de 12 de agosto de 1997, que determinou a obrigatoriedade do ensino do significado e valor dos símbolos oficiais do município, bem como do canto e da interpretação da letra do hino, em todos os estabelecimentos de ensino público da cidade. 

Os símbolos definidos pela lei — Hino, Bandeira e Brasão — tornaram-se parte da formação cidadã das novas gerações, garantindo que o legado de Jesus Ferreira e de José Valeriano Rodrigues permanecesse vivo não apenas em cerimônias cívicas, mas também nas salas de aula, onde crianças e jovens aprendem a valorizar sua história e identidade.

Legado e Memória

A melodia criada pelo Maestro Jesus Ferreira não é apenas acompanhamento musical: ela transforma a poesia em experiência coletiva. O ritmo solene e ao mesmo tempo vibrante permite que o hino seja entoado em cerimônias oficiais, escolas e eventos culturais, unindo gerações em um mesmo sentimento de pertencimento.

A música ressalta a grandeza da terra natal, reforça a religiosidade com a devoção a Sant’Ana e ecoa o som das fábricas, do ferro e dos teares que fizeram de Itaúna um centro de trabalho e esperança.

Hoje, ao se ouvir o Hino de Itaúna, ressoam não apenas versos e notas, mas também a dedicação de um professor que, em meio às dificuldades da vida cotidiana, soube transformar talento em patrimônio cultural. 

A carta ao irmão Cosme é um documento vivo desse momento histórico, mostrando que, antes da glória, houve esforço, humildade e amor pela cidade natal.

O legado do Maestro Jesus Ferreira, bem como o de seu irmão Cosme Caetano, ultrapassa a obra musical. Representa a união de família, arte e cidadania em prol de Itaúna. Cada vez que o hino é entoado, é como se a voz do professor ainda ecoasse, conduzindo em melodia o orgulho de um povo. 

Assim, o nome do Professor e Maestro Jesus Ferreira ficou eternamente gravado na história de Itaúna (Pedra Negra), como o compositor da trilha que embala os ideais de fé, luta e progresso.

 VEJA MAIS...

HINO DE ITAÚNA

O MAESTRO DA ALMA

PROFESSOR ITAUNENSE

ENSINO DOS SÍMBOLOS

BRASÃO DO MUNICÍPIO

BANDEIRA DE ITAÚNA

JORNAL FOLHA DO POVO

SETEMBRO CELEBRAÇÕES


Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Imagem meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.       

Carta datilografada de Jesus Ferreira (SP) ao irmão Cosme Silva (MG) – Acervo Professor Giovanni Vinicius (sobrinho de Jesus e filho de Cosme).

ITAÚNA (Município). Lei nº 331, de 11 de outubro de 1956. Adota letra para o “Hino do Município de Itaúna”. Itaúna: Prefeitura Municipal, 1956.

ITAÚNA (Município). Lei nº 416, de 2 de junho de 1958. Modifica o artigo 1º da Lei nº 331, de 11 de outubro de 1956. Itaúna: Prefeitura Municipal, 1958.

ITAÚNA (Município). Lei nº 3.278, de 12 de agosto de 1997. Dispõe sobre a obrigatoriedade do ensino do significado dos símbolos oficiais do Município, bem como do canto e da interpretação da letra do Hino Municipal nos estabelecimentos de ensino público. Itaúna: Prefeitura Municipal, 1997.

ITAÚNA DÉCADAS - Biografia Cosme Silva    



IRMÃ BENIGNA

IRMÃ BENIGNA: FÉ, LIDERANÇA E LEGADO EM ITAÚNA

  Entre as trajetórias afrodescendentes que marcaram a história de Itaúna/MG, destaca-se a presença da Irmã Benigna Víctima de Jesus, religiosa mineira que deixou um profundo legado de fé, cuidado e liderança social no município durante as décadas de 1930 e 1940.

  Sua trajetória revela não apenas devoção espiritual, mas também resistência, perseverança e compromisso com os mais pobres e enfermos.

  Em Itaúna, sua atuação esteve diretamente ligada à Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, onde exerceu funções fundamentais na assistência hospitalar, no acolhimento espiritual e na organização interna da instituição.

  Sua presença contribuiu significativamente para a humanização do atendimento hospitalar e para o fortalecimento das ações sociais e religiosas desenvolvidas pelas Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade.

  Além do trabalho assistencial, Irmã Benigna tornou-se símbolo de liderança feminina negra em um contexto histórico marcado por profundas desigualdades sociais e raciais.

Sua atuação ultrapassou os limites da religiosidade institucional, alcançando reconhecimento pela dedicação aos enfermos, pela disciplina administrativa e pela capacidade de acolhimento humano.

  Sua passagem por Itaúna representa parte importante da memória afrodescendente local, evidenciando o protagonismo de mulheres negras na construção da história social, religiosa e humanitária do município.

  Décadas após sua missão em Itaúna, sua trajetória continua despertando devoção, admiração e interesse histórico, sendo atualmente reconhecida como uma das figuras religiosas mais importantes de Minas Gerais.

  Em 2022, foi declarada venerável pelo Papa Francisco, marco significativo no processo de beatificação.

  Ao resgatar sua memória, busca-se não apenas recordar uma personagem religiosa, mas também valorizar experiências afrodescendentes muitas vezes invisibilizadas na narrativa histórica tradicional itaunense.


IRMÃ BENIGNA EM ITAÚNA

IRMÃS AUXILIARES DA PIEDADE

IRMÃ BENIGNA: UMA LÍDER NEGRA


Nota sobre a imagem de Irmã Benigna

A imagem apresentada de Irmã Benigna não corresponde a um registro fotográfico histórico original. Trata-se de uma reconstrução visual interpretativa, elaborada a partir de referências documentais, relatos memorialistas, fotografias históricas e fontes relacionadas à trajetória da religiosa.

A composição buscou desenvolver uma representação visual inspirada na estética de retratos fotográficos antigos, procurando preservar características históricas compatíveis com o período em que Irmã Benigna viveu e atuou em Itaúna/MG.

Dessa forma, a imagem deve ser compreendida como uma produção artística e historiográfica de caráter interpretativo, não como documento fotográfico autêntico.


 © ITAÚNA DÉCADAS

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG). 


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

FRANCISCO 1884

 

A JORNADA DE FRANCISCO

A narrativa a seguir é uma história fictícia, mas inspirada em documentos históricos autênticos: os anúncios de jornais do século XIX que buscavam capturar pessoas escravizadas que haviam fugido.

Esses registros, como o publicado em 1884 sobre o jovem Francisco, detalhavam com minúcia impressionante as características físicas e comportamentais das pessoas, revelando não apenas o esforço dos senhores em recapturá-las, mas também as marcas físicas e simbólicas de uma sociedade marcada pela violência e pela desumanização.

Ao construir a história de Francisco, buscamos dar vida a essas linhas secas e burocráticas dos anúncios, imaginando as emoções, os medos, as estratégias de fuga e os encontros humanos que não aparecem nos registros oficiais. 

Não se trata de julgar com os olhos do presente, mas de fazer um exercício de empatia histórica: olhar para o passado com profundidade, entendendo o contexto e reconhecendo as resistências silenciosas e corajosas de tantos homens e mulheres.

Esta é, portanto, uma ficção baseada em vestígios reais. Um convite à memória, à escuta do que os arquivos não disseram por completo — e à valorização da luta pela liberdade que moldou a história do Brasil.

 ESPERANÇA DE LIBERDADE

Em outubro de 1884, a Fazenda Medeiros, localizada em Sant’Anna de São João Acima, vivia dias de inquietação. Francisco, um jovem escravizado de 21 anos, tinha desaparecido na calada da noite, deixando para trás apenas um vazio e muitas perguntas. Pardo escuro, de estatura regular, cabelos anelados e uma expressão de determinação que desafiava o destino, ele já não podia mais suportar as correntes invisíveis que o prendiam àquela vida.

Desde cedo, Francisco era conhecido por sua inteligência e habilidade em aprender rapidamente. Apesar do trabalho árduo, ele tinha um espírito forte e alimentava um sonho proibido para muitos: a liberdade. Ele sabia que essa busca era perigosa, mas o desejo de ser dono de si mesmo superava o medo.

Na noite de sua fuga, Francisco aproveitou a escuridão para escapar pelos campos. Guiado pelas estrelas e pelo conhecimento que adquirira ao longo dos anos, ele traçou um caminho rumo às montanhas, onde esperava encontrar abrigo e talvez a ajuda de quilombos. Mas o perigo estava em todos os lugares. Os anúncios espalhados em jornais e a recompensa oferecida por José Ignácio de Mello eram um lembrete constante de que ele era caçado como um animal.

Francisco, porém, era astuto. Para confundir seus perseguidores, adotou o nome de Antônio Modesto e procurou se misturar entre os trabalhadores livres das pequenas vilas pelas quais passava. Sua capacidade de mudar de identidade, bem como sua descrição física marcante — como a verruga em um dos lados do rosto —, tornavam cada dia uma batalha para permanecer oculto.

Nessa jornada, Francisco encontrou aliados improváveis: pessoas comuns que, tocadas pela sua história e coragem, decidiram ajudá-lo. Uma dessas pessoas era Maria Clara, uma jovem viúva que, apesar dos riscos, ofereceu-lhe abrigo e informações sobre rotas seguras. Com o passar do tempo, Maria Clara e Francisco desenvolveram uma conexão profunda, unida pela esperança de um futuro melhor.

No entanto, a rede de caçadores de recompensas estava sempre um passo atrás. Em um momento de tensão, Francisco foi quase capturado ao atravessar uma pequena cidade. Foi salvo apenas graças a um grupo de quilombolas que interveio no momento certo, levando-o para um quilombo escondido nas profundezas da mata.

No quilombo denominado Catumba, Francisco encontrou mais do que proteção; encontrou uma comunidade de resistência, formada por pessoas que, como ele, tinham enfrentado o impensável em busca de liberdade. Lá, ele se tornou um líder, organizando ações para resgatar outros escravizados e lutar contra o sistema que tentava subjugá-los.

Apesar dos desafios, Francisco nunca esqueceu de onde veio nem o preço de sua liberdade. Sua história tornou-se uma lenda entre os quilombolas e as comunidades negras da região. Pouco anos depois, quando a abolição finalmente chegou, muitos se lembraram de Francisco como um símbolo de coragem e resiliência, um homem que enfrentou o impossível para conquistar aquilo que todos têm direito: a liberdade.

 Jornal A Província de Minas, nº 235
Ouro Preto, 27/11/1884

Elaboração: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

Ouro Preto, 27 de novembro, 1884 Santana de São João Acima (Itaúna/MG).

segunda-feira, 24 de junho de 2024

JESUS DO BANJO

  A poeta Vera Alice dos Santos, em seu relato poético sobre seu pai, Jesus Taveira dos Santos, traça um retrato afetuoso e reverente de um homem que, apesar das dificuldades e simplicidade da vida, deixou um legado marcante tanto no âmbito do trabalho quanto no universo musical. Conhecido carinhosamente como "Jesus do banjo" ou "Figo", foi um trabalhador dedicado e um músico talentoso, cuja presença trazia alegria a todos ao seu redor.

Jesus Taveira exerceu sua função nas décadas de 1950 e 1960 na Cia. Industrial Itaunense. A poeta recorda com carinho que ele trabalhava descalço, “não gostava de sapatos ou botinas”, uma escolha que reflete uma autenticidade e ligação profunda com suas raízes e a realidade de seu tempo. Esse detalhe aparentemente simples, destacado por Vera Alice, poderia simbolizar uma resistência silenciosa à padronização e uma conexão visceral com o chão que pisava, reforçando a imagem de um homem genuíno e resiliente.

Além de sua vida laboral, Jesus Taveira era conhecido por seu talento musical. Durante os dias da semana, à noitinha, ele entoava canções com uma voz mansa e suave, criando momentos de comunhão e alegria familiar, onde todos faziam coro. Esses momentos eram pequenas celebrações diárias, onde a música servia como um laço de união e felicidade.

“Jesus do banjo” transformava-se no músico vibrante que dedilhava com destreza as cordas de seu banjo. Suas apresentações nas festas juninas, serenatas e encontros dos amantes da música eram aguardadas com expectativa, pois ele conseguia, através de seu talento, criar uma atmosfera de alegria e celebração que encantava a todos.

Através das memórias da poeta Vera Alice, emerge a figura de um homem que, apesar das limitações e dificuldades da vida, encontrou na música uma forma de expressão e um meio de alegrar aqueles ao seu redor. Sua dedicação tanto ao trabalho quanto à música é um testemunho de sua força e paixão pela vida. O legado de Jesus Taveira, portanto, não é apenas de um trabalhador esforçado, mas também de um artista cuja música continua a ressoar nas memórias e corações daqueles que tiveram a sorte de ouvi-lo.

Vera Alice dos Santos, com sua narrativa poética, consegue capturar a essência de seu pai, oferecendo ao leitor uma visão íntima e tocante de um homem cuja simplicidade e talento deixaram uma marca inesquecível na vida de sua família e comunidade itaunense.


Veja o incrível: Acróstico -  Jesus do Banjo 


Referências:

Arte, pesquisa e organização: Charles Aquino

História oral e escrita: Poeta Vera Alice dos Santos em 2016

SANTOS. Vera Alice do. Essências. 1ª Coletânea do Grupo de Escritores itaunenses. Ed. Vide, 2015, p. 119.


quinta-feira, 6 de junho de 2024

DEVOTO TOMÁS DE AQUINO

FAMILÍA AQUINO EM ITAÚNA MG
O impacto de Aristides de Aquino como profissional e como pai é caracterizado por uma mistura de proficiência, comprometimento, perseverança e carinho. 

Seus filhos herdaram não apenas um nome, mas também uma coleção de princípios e modelos.

A influência de Aristides é evidente na conduta, na ética de trabalho e na resiliência demonstradas pelos seus descendentes ao enfrentarem as provações da vida, garantindo que o espírito e os ensinamentos do seu patriarca perduram.

   Inspirando-se em São Tomás de Aquino, a decisão de adotar o sobrenome Aquino significa um vínculo profundo com a fé e a espiritualidade. 

Sem dúvida, esta devoção desempenhou um papel fundamental na formação do desenvolvimento moral e ético dos seus filhos, estabelecendo uma base sólida de princípios e promovendo um sentido de unidade dentro da família. Este senhor como profissional e pai, deixou um legado indelével, impactando profundamente a educação e os valores incutidos nos seus filhos.

 Aristides dedicou parte significativa de sua vida à Rede Ferroviária, cumprindo a função de guarda-fios. Esta posição específica desempenhou um papel vital na preservação da integridade das linhas telegráficas e telefónicas, que foram de extrema importância numa época em que a tecnologia ainda estava na sua fase inicial. 

O excepcional nível de responsabilidade e proficiência demonstrado por Aristides no desempenho das suas funções serve como um exemplo brilhante de dedicação e profissionalismo inabaláveis.

   A capacidade de Aristides de se ajustar e enfrentar diversas situações e obstáculos é exemplificada pela escolha de residir em um vagão conectado a um trem, garantindo movimento constante ao lado de sua família. Apesar dos desafios, este modo de vida nômade mostra a sua adaptabilidade e a sua disponibilidade para fazer sacrifícios em prol do bem-estar da sua família e das suas obrigações profissionais.

   Aristides e sua esposa, Dona Puruca, criaram com sucesso um total de quatorze filhos (dois dos quais morreram na infância) e até ampliaram a família adotando um. Eles não apenas proporcionaram um lar amoroso para seus filhos, mas também incutiram neles uma base sólida de valores. 

A vida itinerante que levaram, deslocando-se de cidade em cidade, proporcionou, sem dúvida, aos seus filhos uma educação única e diversificada, mergulhando-os em diversas culturas e expondo-os a diferentes perspectivas de vida.

   A influência da dedicação inabalável de Aristides ao seu trabalho e do seu papel como pai atencioso teve um efeito profundo e duradouro nos seus filhos. Eles colheram lições valiosas sobre a importância da diligência, da responsabilidade e da resiliência. Esses princípios são fundamentais para formar indivíduos que sejam firmes na busca de aspirações pessoais e no cumprimento de responsabilidades.

   Aristides não só tinha uma forte ética de trabalho, mas também encontrava alegria no futebol e na música. Esta mistura harmoniosa de trabalho e lazer provavelmente incutiu nas crianças o valor de perseguir paixões pessoais e de abraçar as alegrias da vida fora do trabalho. 

Além disso, o seu humor contagiante e o seu bigode distinto serviam como símbolos exteriores da sua personalidade viva, o que sem dúvida fomentava uma atmosfera calorosa e convidativa no seio da sua família.

 

ORIGEM DA FAMÍLIA AQUINO

No arraial mineiro do Morro de Matheus Leme, hoje cidade de Mateus Leme, no ano de 1912 nascia Aristides de Aquino – patriarca da Família Aquino. Funcionário da Rede Ferroviária por vários anos, exerceu a função de guarda-fios (profissional que fiscalizava a linha telegráfica ou telefônica; que trabalhava nas montagens de postes de madeira que  eram colocados os fios e efetuando reparos de emergências quando necessário). 

O guarda-fios casou em 27 de janeiro de 1940 com Maria Nazaré Castanheira (Dona Puruca) e juntos percorreram trabalhando e residindo em várias cidades de minas gerais, tendo como moradia um carro-vagão que era engatado a um trem.

Desta união alguns filhos nasceram em distintas cidades mineiras – José Maria de Aquino, nascido em Passa Quatro, Maria Aparecida de Aquino, nascida em Alfenas, Leonardo Custódio de Aquino, nascido em Araxá, Lucília Castanheira de Aquino, nascida em Belo Horizonte, Luiz Gonzaga de Aquino, Geraldo Benedito de Aquino, Maria Lúcia de Aquino, Maria de Fátima de Aquino, Aristides Antônio de Aquino, Natália de Aquino, Maria Márcia de Aquino e Maria Angélica de Aquino nascidos em Itaúna. Uma criança foi adotada pelo casal, Weber de Oliveira, nascido também em Itaúna.
 
No ano de 1936, o presidente Getúlio Vargas, assinava a Lei de número 252 de 26 de setembro, que prorrogava o prazo para o registro civil de nascimentos: Art. 1º Os nascimentos ocorridos no território nacional desde 1 de janeiro de 1879, que não foram registrados no tempo próprio, devem ser levados a registro dentro do prazo de um ano, mediante: 1º Petição e despacho do juiz do cível do lugar do nascimento se o registrando tiver doze anos de idade, ou mais.

 Aos 19 de outubro do ano de 1937, Aristides com idade de 25 anos, compareceu ao Cartório de Mateus Leme com a presença de testemunhas, exibindo uma petição despachada pelo Juiz de Direito para registrar o seu nascimento em virtude da Lei de 1936 e declarou:

 Que ele declarante ARISTIDES DE AQUINO, do sexo masculino, de cor morena, nasceu neste arraial, à rua do cemitério, no dia sete de março de mil novecentos e doze, às dezesseis horas, que é filho de JOÃO CAMILLO DA SILVA, brasileiro, já falecido e de dona MARIA ADRIANA DA SILVA, brasileira, ambos naturais deste distrito, (…), que são seus avós: pelo lado paterno CAMILLO MOREIRA DA SILVA E MARIA LUCAS DA SILVA, ambos já falecidos e pelo lado materno FRANCISCA MARIA DE JESUS, já falecida; finalmente que não tem outros irmãos com o mesmo prenome. 

Do que faço constar, faço este termo em que comigo assinaram o declarante e as testemunhas MANOEL BRAZ OBELHEIRO, comerciante e JOSÉ MENDES, padeiro, residentes neste distrito, depois de ser lido por mim e achado tudo conforme. Eu Francisco de Abreu Vasconcellos, oficial do Registro, o escrevi e assino.  O referido é verdade, do que dou fé, Mateus Leme –  MG, 1937.

 Além de exercer com competência e amor sua profissão de guarda-fios, Tico – Tico, assim chamado pelos seus amigos e familiares, Aristides de Aquino, apreciava o futebol e uma boa música.  Sempre acompanhando de seu charmoso e inseparável Moustache (bigode) tinha como aliado, um senso de humor apurado, esse cultivado até hoje pelos seus descendentes. Sua casa em Itaúna, era situada à rua Santo Agostinho, nº 67 – Graças. 

Verificando a documentação no cartório da cidade de Mateus Leme, percebi que o sobrenome AQUINO teria sido escolhido pelo próprio declarante Aristides, cujo seus pais não possuíam. 

Descobriu-se também, uma interessante informação sobre o monge dominicano, professor filósofo e teólogo São Tomás de Aquino (morreu em 7 de março de 1274) e Aristides de Aquino (nasceu em 7 de março de 1912), que ambos tinham o mesmo dia e mês em comum. Conversando com familiares, fui informado que meu avô Aristides de Aquino era devoto do monge, no qual, certamente em sua homenagem, adotou o seu sobrenome dando origem a família AQUINO.


Charles Aquino - neto 

06/06/2024